Archive for Dezembro, 2008

Sereno Fernando,
só há areia, mar batido, vento e o céu carregado. As ondas lambem a praia e um homem tem que se acautelar, porque elas têm um regaço largo onde cabe quase tudo o que aparecer e só devolvem tarde de mais, ou porque molham até aos ossos e uma noite assim parece o suplício de uma vida. Há que ser veemente no lançamento, dar uma chicotada determinada e ficar a olhar o chumbo que arrasta um isco que voa. A resposta é espuma e mais espuma, rebentações que soam como foguetes de fim-de-ano, daqueles de um só estrondo, mas secos. Prás! E lá vem ele alisar de novo o areal…

Caro amigo

Não te respondo eu daqui com outro mistério mas é quase um aquilo que Augusto Vaz faz (fica mal… Vaz… faz… mas o homem faz, que hei de eu fazer? oops… escrever?). De folhas de milho faz escravos, de cascas de bananeira peixeiras, de pedaços de árvore tocadores de funaná, de vidros surfistas. Não, não é milagre, é paciência e jeito. Bem haja.

Admirado Fernando,
tem-me faltado o tempo para a escrita. E a vontade também não tem abundado. As novas são quase todas velhas e o trabalho tem-me deixado pouca disponibilidade para te ir dando outras notícias. Quando esta onda passar, espero contar-te por que mar ando a navegar estes dias. Abriu-se-me só uma fresta de tempo com menos borrasca e dei de caras com um mistério, que venho repartir contigo. Protagozinado por um vulgar copo de água da torneira.

Caro amigo

Se perguntarmos a cada português onde fica Cabo Verde, quantas ilhas tem e qual a capital, quantos achas que conseguem responder? Há dias, num concurso que dá aí e que passa na RTP-África, perguntava-se em que ilha fica a capital, Cidade da Praia. As hipóteses eram três. E os três carolas, que é um concurso de cultura geral, não acertaram. Estou convencido de que se pedires a cada português que diga o nome de um cabo-verdiano conhecido 99 por cento dirá Cesária Évora. Hoje falo-te dela.

Caro amigo

Ainda que na Cidade da Praia, ainda que longe já das eleições guineenses, queria falar-te hoje de Valéria Amato e do seu projecto em Cumura, nos arredores de Bissau. Valéria Amato é freira e tem uma voz doce. Uma voz que, quase acredito, ajuda a curar as pessoas com sida, lepra e tuberculose que a rodeiam.

Caro amigo

Fica então com esta sequência. De verdadeiros porcos a banhos. Um abraço

Fernando Peixeiro





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