Archive for Novembro, 2008

Incrédulo Fernando,
o Verão estava ali a descair para o Outono e na praia quase ninguém. Quem podia, ainda consumia o último calor que o sol proporcionava e o vento permitia. Estávamos nos anos 80 e o campismo selvagem era tão comum como hoje andar de óculos escuros na cabeça um dia inteiro. Um amigo meu vendia electrodomésticos e eu ajudava-o nos momentos livres.

Caro amigo

Hamadú Candé é das pessoas mais sofridas que conheci até hoje. Não o vi chorar, torcer-se de dor, não o vi gritar ou gemer. Falei com ele à sombra de uma árvore, sentados em cadeiras de plástico, mas nem foi tanto a sua voz que me impressionou. Os olhos de Hamadú espelham o que lhe vai lá dentro, o que sofreu alguém que andou quase ano e meio a rondar a Europa e acabou num restaurante, na estrada do aeroporto de Bissau.

Bissau

Caro amigo

A vida tem destas coisas. Quando tu me imaginas calmamente na Cidade da Praia, entre o mar e as montanhas de Santiago, ao som de mornas e coladeiras, estou na verdade entre balantas e papeis, entre tabankas e toca-toca. Estranhos termos para Cabo Verde mas tão comuns na Guiné-Bissau.

Precavido Fernando,
não te quero alarmar nem deixar indisposto, mas se o PSD voltar ao governo e por vontade da sua actual líder a nossa profissão vai desaparecer. Vão ser os políticos que vão decidir o que se publica sobre si nos jornais, nas rádios e nas televisões. Informar vai passar a ser uma tarefa deles. Diz Manuela Ferreira Leite que a sua mensagem não passa, a culpa é dos jornalistas, portanto…mate-se o mensageiro. Onde é que eu já ouvi isto, Fernando?

Caro amigo

Falei-te em tempos de uma viagem aterradora, entre vagas e ilhéus, só não te expliquei o que me levou a meter-me num barquinho para ir a uma ilhota deserta, sem sombras e sem comida, onde se dorme no chão e à luz da lua. Pois, digo-te agora, fui ver, com os meus próprios olhos, que as cagarras, umas aves com cara de pombo e pés de pato, este ano puderam ter as suas crias em paz o sossego. Não acontecia há décadas.

Prokofiev

Caro amigo

Está um homem com tudo controlado, a sair de uma reunião no Ministério dos Negócios Estrangeiros, agarrado ao telefone a prometer que em 10 minutos está pronto para levar dois amigos ao aeroporto, e dá-se conta que não tem chaves. Do escritório, do carro e de casa. Deixa os amigos pendurados, trabalho por fazer, e está num corrupio de telefonemas a tentar resolver o problema quando recebe uma intimação: tens uma hora para estares em minha casa, tens de vir cá jantar. Não podes falhar. O podes assim tipo sem direito a recusa. Estás a ver?




PARCEIROS