Archive for Outubro, 2008

Viajante Fernando,
recordas-te de te ter falado daquele casal que atravessou meio mundo de bicicleta, indo da Europa até à Ásia em quatro anos e percorrendo 38 mil quilómetros, quase os cerca de 40 mil que tem de perímetro a Terra no Equador? Como prometera, volto à epopeia. Fiquei cá com a pulga e consegui a “morada” deles. Escrevi-lhes, e muito amavelmente esclareceram-me algumas das dúvidas que continuava a alimentar depois de ler o livro onde relatam a odisseia. E sabes que mais? Se não lhes tivessem nascido dois filhos, a esta hora andariam a pedalar devagar pelo mundo…

Caro amigo

Tenho andado tão ocupado por estes dias que mal me sobra tempo para te escrever. E hoje falo-te do assunto que me tem mantido aqui de um lado para o outro. Droga. Tráfico. Mas pelos bons motivos. Não imagines, já aí, que me tornei um narcotraficante. Continuo pobre.

Guloso Fernando,
estava eu confrontado com um arroz de pato quando ouvi nas minhas costas as curtas frases que me deixaram de garfo suspenso. Era uma voz feminina, quase de falsete, daquelas que parecem em agonia, a desvanecer-se, a ameaçarem deixar de se fazer ouvir a qualquer momento. Uma mistura de travo amargo, desespero e má criação. Esperei um minuto que pareceu uma tarde de Inverno para ver a autora. Ainda tentei vislumbrar, disfarçadamente, por cima de um ombro e do outro, mas nada. Confesso que me agradou a breve ideia de que a boca que deixara escapar aquelas as palavras não existisse. Mas lá surgiu ela à frente de um corpo, que passou entre mim e o balcão.

Boas bocas

Caro amigo

Há cães assim. Com vidas melhores do que de muitas pessoas. Mas já não direi o mesmo dos que por aqui tenho, a maior parte com um ar lamentável, magro e triste. Tão triste! Acho que os cães da Praia andam tão abatidos que até a vontade de ladrar perderam. Se calhar sorte a deles. Assim nem apetece filar-lhes o dente.

Leal Fernando,
quando te estou a escrever estas linhas, ele deve estar a viajar com a “família” entre o Ribatejo e Lisboa, refastelado com as crianças no banco de trás. Mal abram a porta do carro, vai ser o primeiro a sair e não se vai preocupar com malas nem carrinhos. Depois de uma semana fora, provavelmente vai querer matar saudades da casa e do gato. Se chegar de dia e lhe permitirem, ainda vai dar uma volta pelo bairro e rever os amigos da cidade, antes de tornar para conforto do lar. Segunda-feira lá volta à rotina. Sair de manhã e regressar apenas ao fim do dia, como fazem todos lá em casa.

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Liberal Fernando,
um pequeno apontamento para levar uma notícia carregada de simbolismo. Quase passou despercebido aqui e calculo que aí também. O líder da extrema-direita austríaca, Joerg Heider, morreu precisamente há uma semana num acidente de viação. A terra lhe seja leve. O que se soube depois é que o paladino da moral e dos bons costumes conduzia perdido de bêbado quando se despistou.

Caro amigo

Há pessoas que gostam de contar histórias. Pode não ser nada de especial mas fixam-se em pormenores, acrescentam aqui e ali uma pitada para dar mais cor e servem-na depois entre risos e devagar, como convém. Há um homem que vive no Calhau, ilha de S. Vicente, que, tenho a certeza, ainda hoje se ri. Dentro de um ano ainda falará do assunto. Foi um amigo dele que o disse. Assim mesmo. “Ele adora histórias, daqui por um ano ainda anda a contar isto, mas nessa altura já lhe acrescentou mais umas coisas”.

Aventureiro Fernando,
o Luís Nascimento, um amigo de longa data e companheiro de muitas jornadas, fez questão de me fazer chegar por estes dias um cópia de uma reportagem que fez para a rádio, onde é editor do Internacional, a Antena 1. Ele tem aquela veia que vai escasseando. Reuniu uma das melhores agendas que conheço, pelo que vou ouvindo (entrevista em qualquer parte do mundo quem interessa ouvir em cada momento), mas o que ainda mais o delicia é uma bela história, cheia de sons, retratos, contada pelos protagonistas. O repórter só vai dirigindo a conversa para o que importa. Não percamos, mais tempo. Aqui te deixo o relato de uma travessia de Verão.

Caro amigo

Quando há dois dias estava sentado na sala de espera do aeroporto do Mindelo e chamaram os passageiros para a Cidade da Praia levantei-me de um salto e fui o primeiro a ir para a sala de embarque. Tentava livrar-me da nuvem de moscas que me envolvia e que estava já, escandalosamente, a dar nas vistas.

Banhos

Higiénico Fernando,
de banhos ou da falta deles também uma colecção, que será seguramente mais fácil de organizar do que a tua. E não era por falta de água, mas por falta de sítio para os tomar e evitar ficar mais sujo do que já se estava. Lembraste das baratas en Díli? Era com a água onde elas morriam que comecei por me lavar na capital timorense, quando lá cheguei.




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