Archive for Setembro, 2008

Caro amigo

Acharás tu estranho que os coveiros do cemitério da Cidade da Praia tenham proibido as pessoas de ir lá limpar as campas das famílias, um hábito de cá, como de lá e de muitos outros países? Crês que a partir de agora fica ao abandono esse local de culto? Não aches. Não creias. Cabo Verde é assim!

Remediado Fernando,
tive um professor que no final da adolescência decidiu sair de casa dos pais, assim como um navio que solta a amarra do porto para se poder fazer ao mar. Claro que não deitou contas e o que ele esperava ser um idílio começou a ganhar contornos de pesadelo. Pagar o quarto e comer exigiam dinheiro que não tinha suficiente. Sabedora disso, a mãe ia levar-lhe as refeições, que ele aceitava mas recebia em tom de protesto:”Lá vem a burguesia dar de comer ao proletariado”.

Caro amigo

Esses pontinhos que vês na foto são tartarugas. Falei-te aqui várias vezes delas, se calhar demasiadas, de como as matam nestas ilhas quando chegam às praias para desovar. Falei-te de morte, hoje falo-te de vida. E mostro-te, ainda que a imagem não seja a melhor, que nem tudo é mau para o lado dos bichinhos de carapaça.

Verdejante Fernando,
andava eu a falar-te de episódios mais ou menos banais de umas férias sem história, apesar de boas, e eis se não quando sou quase massacrado com essa artilharia verde, vindo de onde eu já conheci, por tua causa, pessoas, lugares e modos, mas donde não esperava sinceramente um reviravolta assim. Um rochedo, uma montanha de lava arrefecida há milhares de anos, verdejantes, numas ilhas que não conseguem livrar-se dessa condição de ficarem no enfiamento do maior deserto do mundo.
Andei por aqui a remoer que te tinha que te responder à altura. Com uma faena dessas registada aqui, que trouxesse o país nas nuvens,  nós todos esquecidos das desventuras. Procurei, investiguei, ouvi, li e o melhor que encontrei para poder ombrear com essa autêntica provocação foi que aqui perdemos menos verde este ano. Assim mesmo!

Caro amigo

Fim-de-semana. Máquina fotográfica nova, claro. Lá fui eu, com gente amiga, dar uma volta pela ilha, para te confirmar aqui que Santiago está mesmo verde, embora a falta de chuva possa matar parte desta gigantesca plantação de milho e feijão onde estamos a viver. Aqui é mesmo assim. Chove, semeia-se febrilmente, continua a chover, a ilha veste-se de verde, chove um pouco mais, as plantas crescem, a alegria também, e a esperança. E um belo dia as nuvens ficam só aí à volta, nós cá na terra de nariz para o ar, a farejar cheiro a água, e de ela nada. Rodeiam a ilha, metem um ar pesado, escurecem o céu, ameaçam uma bela bátega, e depois passam serenas, como se o milho não merecesse mais uma hipótese e tenha de morrer assim, a meio de crescer. Alguns tiveram sorte, semearam cedo. Ainda ontem vi umas espigas já “espigadotas” e há dois dias experimentei a colheita do ano.
Outros, como os que semearam todo o campo de futebol ali para os lados de Pedra Badejo, talvez vejam a colheita morrer se não chover por estes dias.
Passei por lá ontem e já se nota que a teimosia das nuvens vai dar maus resultados. Mas depois do Tarrafal regressei a casa pela serra, onde o verde ainda é viçoso e se calhar a maior parte da colheita já se salva. Há milho. Há milho. Com as nuvens a escassear cada vez mais valha-nos isso, porque este povo, como já uma vez aqui te disse, também bem o merece.

Caro amigo

Sabes os furacões? Quando passam, destruindo tudo, e depois de repente pára o vento e a chuva e tudo fica muito calmo? Dizem que é o olho, o centro do furacão. É só uma calma aparente, preocupante, porque sabe-se que a seguir vem outro tanto. Aqui em Cabo Verde vive-se uma “normalidade preocupante”. Coisas de ministro. Normalidade não sei se vive, mas que é preocupante… ah lá isso é.

Verde

Caro amigo

Tanto silêncio faz-me pensar que ainda andas tu aí de férias, aproveitando se calhar estes últimos dias de calor, segundo o calendário. Por aqui a temperatura, felizmente, baixou. Não tem chovido, mas quero que vejas o que as águas fizeram por cá. Santiago, claro, mas ao que parece todas as ilhas. Até a Boa Vista e o Maio, bafejadas com belas praias mas onde em (des) compensação a chuva ainda escasseia mais. O Fogo, pelo que me dizem, parece uma ilha dos Açores. E imagino como devem estar lindos os vales de S. Vicente e as montanhas de Santo Antão… Aqui, por Santiago, o milho já nasceu e as vacas e cabras andam com um ar feliz e saudável. Respira-se melhor, há menos pó e a esperança de um bom ano agrícola cresce, como as plantas, todos os dias mais um bocadinho. Mando-te sem mais umas fotos raras, de Cabo Verde verde.

Um abraço e espero em breve novas tuas

Fernando Peixeiro

O lusco e o fusco

Caro amigo

Cheguei uma noite destas, já madrugada. Saí de fininho, sem ninguém me perguntar se queria ajuda nas malas ou se precisava de táxi, coisa rara. E percebi que os dias que aí vinham não iam ser fáceis, pelo calor e humidade que se agarraram a mim mal deixei o avião. Ainda cá andam.

Enamoramentos

Pândego Fernando,
gosto muito dos dias e perco-me pelas noites, mesmo quando são curtas. É bom sair quando o escuro já domina e ir por aqui sentir o viver, a pacatez animada, onde se passa o tempo da melhor forma que se pode, porque ele não falta, porque não é preciso correr atrás da vida, porque ela vem ter connosco. Gosto daquela meia-luz, em que se vê o que é importante e nada mais.


Caro amigo,
fixo-me na última parte da tua carta para te dizer que as férias, coitadas, estão de resto. Para a semana, a próxima carta, se tudo correr como previsto, já será enviada de Cabo Verde, agora sim, pelo que me contam de lá, verdadeiramente verde. Disseram-me alguns cabo-verdianos que até já estão fartos de chuva, imagina.




PARCEIROS