Archive for Junho, 2008

Caro amigo

Escrevo-te três dias depois de ter havido, aqui em Cabo Verde, mudanças no governo. Foi na sexta-feira que o primeiro-ministro convocou os jornalistas para anunciar a saída de alguns ministros, de outros que mudaram de pasta, de caras novas, outras estratégias e outras ambições. Agora, dos 15 ministros que compõem o governo deste país, oito, a maioria, são mulheres.

http://www.impac.com.brIncrédulo Fernando,
vê-se e quase não se acredita: no dia em que terminou em Lisboa o Congresso Feminista, a televisão pública (RTP) brindou-nos com uma peça supostamente informativa no Jornal da Tarde que revela como o machismo vai continuar entranhado por muitos e longos anos na nossa sociedade. Não pelos protagonistas da suposta história, mas pela forma como foi tratada pelos jornalistas responsáveis pela sua emissão. Tudo porque um homem de 88 anos pôs um anúncio no jornal para arranjar uma companheira. O que tem isto de noticioso? Nada. Foi o primeiro da sua idade a fazê-lo? Não disseram. Mas, mesmo que fosse, tal não justificaria o exercício de descriminação sexista, violação de privacidade e “voyeirismo” do mais puro.

Caro amigo
Cabo Verde deve ter entrado ontem para um Guinness qualquer. Tem provavelmente o único Parlamento do mundo que votou contra uma descida de impostos. Era uma descida para metade mas os deputados não quiseram. O povo, o tal que deviam representar, é que se está marimbando para outras questões que não seja o pão para a boca. Acho que isso eles não entenderam.

Diário de NotíciiasFelizardo Fernando,
lembraste de ter falado no caso da adjudicação do sistema de transmissões para as forças de segurança e Protecção Civil? E de que o negócio tinha custado quase cinco vezes mais do que a comissão nomeada para aconselhar a adjudicação recomendara? Pois bem, o então ministro da Administração Interna que assinou o contrato com o grupo para o qual trabalhara antes nem foi ouvido pelo procurador-geral-adjunto encarregue de investigar se havia ilegalidades no negócio. O magistrado não encontrou matéria criminal para acusar. Foram-se 400 milhões de euros do erário público, mas isso não tem importância nenhuma. Temos que confiar na Justiça…

Caro amigo

Quando eu e a Carla bebíamos café há tempos numa pastelaria que já nem existe percebemos que nem um nem outro tinha um isqueiro ou fósforos para acender um cigarro. Que fizemos? Nada. Esperamos calmamente que chegasse um estrangeiro. Um senhor com ar de português sentou-se numa mesa perto e pediu um café. Tiro e queda. A seguir acendeu um cigarro! Uma das características dos cabo-verdianos é, bom para eles, a pouca apetência para os cigarros. Mas há outra muito saudável.

http://www.flickr.com/photos/luisa/95399379/Cronista Fernando,
não tem o dom da escrita, creio até que nem saberá ler, mas domina uma arte bem mais rara nos dias correm: iludir a ASAE, a polícia portuguesa dos comerciantes e de alguns costumes. Sem correr o risco de ser exagerado, acho que finta os inspectores com muito mais facilidade e naturalidade do que Germano de Almeida verte as suas histórias para o computador. Não excluo que possam mesmo conhecer-se. Ela até pode saber onde fica a Lajinha e gostar de afogar o olhar na baía do Mindelo. Tem ares de ter nascido por essas bandas. Mas não precisa de novas tecnologias. Basta-lhe uns baldes de tinta vazios, um alguidar ou dois, uma grande dose de coragem e um coração forte, para não precisar de andar sempre com ele nas mãos.

 

Caro amigo

Cheguei a casa dele com um saco de ovos. Carreguei-os com cuidado, de táxi, como o Vasco me tinha recomendado. Germano riu-se. E riu-se outra vez quando o Omar lhe ofereceu um charuto cubano. Não mais o largou mas também não o acendeu. Cheguei a casa dele com hora marcada, mas ficava todo o dia na conversa. Germano Almeida.

Informal Fernando,
há dias falei-te de medidas simples mas estruturais, que os governantes evitam como sarna, quando falei do incentivo do uso do gás GPL nos automóveis. Nestes dias recordei-me de outra ainda mais simples, quando vi uns homens engravatados nuns carros oficiais estacionados, de vidros fechados e com os motores a contribuírem afincadamente para o efeito de estufa.

Caro amigo

Não te parece que há pessoas que quanto mais pobres e desgraçadas são mais arrogantes se tornam? Do género tu pensares que aquela gente, se tivesse uma dose maior de humildade, tinha mais a ganhar? Com países acontece o mesmo. Sobe a prepotência enquanto desce o PIB.

Ambientalista Fernando,
subscrevo em absoluto a tua indignação com quem mata tubarões porque esses massacres continuam a render e fico também revoltado com o facto de haver gente que paga o que lhe pedirem para comer uma extravagância qualquer, mesmo que se trate de um capricho com consequências devastadoras como essa da sopa de barbatana. Ter muito dinheiro está cada vez mais a tornar-se sinónimo de ignorância.  E mantém-se árdua a tarefa de combater a ideia antiga de que o dinheiro tudo compra e tudo paga. Puro engano! Vê para onde estamos a caminhar, porque se instituiu que as regras da sociedade devem ser determinadas por questões financeiras.




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