Archive for Maio, 2008

Primeiro-ministro, José SócratesAtarefado Fernando,
com esse corre-corre a que te obrigam as eleições por aí, ainda vais ser apanhado em excesso de velocidade nalguma curva. Não te preocupes! Como por cá agora pode-se alegar o desconhecimento da lei quando se comete uma infracção e pedir desculpa depois para sermos ilibados, podes tentar a estratégia e ver pega. Se aqui o primeiro-ministro o faz, não vejo razão para que nos outros regimes democráticos seja diferente, não te parece? É uma espécie de jurisprudência baseada na superior conveniência do indivíduo…

Caro amigo

Não é que esteja chateado, nem triste, nem sequer bêbado. Também não me vou levantar às quatro da manhã. É só uma questão de clima mesmo. Hoje estou cansado e vou direitinho dormir. Tive um dia movimentado, por aí à procura dos candidatos a autarca, que pode parecer estranho mas são difíceis de encontrar. São como os polícias. Quando queremos um não o encontramos, quando não precisamos tropeçamos neles.

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Repórter Fernando,

eis-me regressado mas sem vontade de me levantar às quatro da madrugada e muito menos de corridas matinais, como sugeres. Aceito e cumpro o conselho do banho, mas em circunstâncias bem diferentes e mais exigentes, porque não tenho o privilégio de morar junto à praia. Firme, isso sim, no propósito de por a nossa escrita em dia. Mal sabia eu que, quando voltasse a sentar-me para retomar a correspondência, desta vez para te deixar algumas impressões de um pequeno livro que li, depararia com mais um relato desse teu espírito de repórter nato, que mergulha a fundo na realidade para a compreender e relatar, nem que isso implique andar pela praia às seis da manhã…

Caro amigo

Visto que persistes nesse teu mutismo, a não ligares nenhuma às minhas cartas, calado que nem um rato, venho só dar-te um conselho. Andas cansado? Com muito trabalho? Sem vontade? Desinspirado? (Ando a inventar palavras agora). Aborrecido? Começa a levantar-te às quatro da manhã e vai dar um mergulho à praia. Aqui funciona. Parece.

Caro amigo

Andas tu muito calado por aí. Se fosses uma criança diria que, com tanto silêncio “ou já a fizeste ou estás para a fazer”. Asneira, claro está. E por falar em asneira… sabes que ontem foi mais um barquito ao fundo, aqui no arquipélago? Dramático! Afundam mais rápido do que num jogo da batalha naval!

Má sina

Caro amigo

Não sei bem o que te posso dizer hoje, tanto mais em que à hora que te escrevo não tenho Internet outra vez, coisa banal por aqui, como sabes. Mas também, a um domingo, terás coisas mais importantes para fazer, agora que o tempo está bom. Por cá, poderei estar na praia, a dormir, numa esplanada ou sei lá eu. Mas na Praia estarei, por certo. Com ou sem comunicações.

Recordado Fernando,
faz amanhã um ano que desapareceu de um apartamento no Algarve Madeleine McCann, uma menina britânica então com quatro anos, que dormia com os dois irmãos gémeos mais pequenos enquanto os pais jantavam com amigos num restaurante a 50 metros. E quase te podia repetir a carta que te escrevi dias depois. E outras que te fiz chegar sobre o caso. É que tudo está na mesma. A Polícia Judiciária não deixou transparecer qualquer evolução nas investigações, os pais voltaram para casa mas continuam a ser arguidos, o que faz sobre eles recair suspeitas, e o tema veio a perder gás, quase só recordado na altura do lançamento de livros sobre o que se terá passado na Praia da Luz. Como alguém já disse, o “caso” tornou-se num grande negócio.

Caro amigo

Poderia fazer-te uma dissertação sobre o trabalho, o tal que dignifica o homem…e a mulher, porque hoje é o dia desses pobres esforçados, mas prefiro falar-te antes de outros pobres esforçados. Mais precisamente 2030. Começaram há umas horas num frenesim de 15 dias, a ver se ganham as 22 câmaras de Cabo Verde. Aqui não há dezenas de manifestações nem protestos contra baixos salários, só campanha eleitoral. E tinha de te falar disto, porque é isto o que está a dar pelas ilhas.




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