Archive for Abril, 2008



Loucura!!

Lúcido Fernando,
visto da Madeira, pelo olhar do homem que domina a região há 30 anos, o mundo está louco. Escaparão os seus comparsas políticos do arquipélago, mas mais ninguém está livre de ser acusado de défice de juízo. Confesso que temo pela clarividência de alguém que vejo a acusar todos os outros de algo de que ele surge assim quase como o único “libertado”.

Caro amigo

Acho que estás a precisar de férias, tão abatido te sinto nas tuas cartas, tão desgastado, desiludido. Os políticos, às vezes, é melhor esquece-los. Mas como podemos nós? Eu tento mas eles não me deixam. Fazem tanto barulho… No Sal acordaram-me todos os dias antes das oito e aqui na Praia levo com eles tardes inteiras. E quando passam não penses que é com pezinhos de lã.

Rui Gomes da Silva e Luís Filipe Menezes - Foto DNDistante Fernando,
sei que é um momento de muito pouca dignidade, mas é o que mais abunda e não se pode ignorar essa desalentosa realidade. Venho dar-te a conhecer a história do partido que quis enxovalhar uma jornalista por ela ter uma suposta relação amorosa com o primeiro-ministro. É tão só e apenas o maior partido da oposição, que já governou muitos e longos anos, e agora destacou três dos seus dirigentes para desferirem o ataque.

Caro amigo

Não se está mal no Sal, não senhor, mas é da Praia que te escrevo agora, regressado de mais uma viagem pelas ilhas, que isto não há fome que não dê em fartura. Mas o Sal, com tanto guindaste, tem quase um sabor amargo. A sorte é que os turistas parecem ter palas, como os burros. Ou então são os muros altos, dos hotéis. Ou então é mesmo do sal, que lhes turva a vista.

Avisado Fernando,
uma demanda por causa de um cão, ao que contam os relatos, está quase a provocar um golpe de Estado aí na vizinha Guiné-Bissau. Há três mortos a assinalar, a polícia de intervenção desarmada, vários dos seus elementos detidos, a directora da Polícia Judiciária a pôr o lugar à disposição e o Governo, nas calmas, a anunciar para segunda-feira, dia em que lerás esta carta, uma conferência de imprensa para tentar explicar o que se passou, se é que alguém vai conseguir esclarecer realmente o que esteve na origem de tamanha turbulência em Bissau.

Caro amigo

Duas mortes, dois assassinos, uma mulher enterrada viva, um homem que manda matar a companheira de oito anos, um grupo de narcotráfico, droga em pranchas de surf da América para a Europa, uma violação, gás, uma jovem ferida, uma herança, muito dinheiro. Parece um filme? Eu acho que é.

Desterrado Fernando,
essa tua deslocação à ilha do Sal não foi ao fim do Mundo mas levou-te onde não há internet, pelo que não chega aí o Atlântico expresso a levar (e trazer) a correspondência. Não se sabe aqui que algum navio tenha arrancado um cabo submarino com a âncora, pelo que se fica à espera que aue as autoridades daí justifiquem porque foi interrompido um serviço público fundamental em qualquer país, e por maioria de razão, num dos estados com melhores índices de desenvolvimento em África. Já me sentei, mas não desistirei de esperar.
Falhas inexplicáveis à parte, venho hoje preparado para te dar uma novidade: já podemos ir literalmente para o céu depois de morrermos, ou mesmo para Lua.

Cavaleiro Fernando,
anda alto o debate político pela terra da morabeza, quando as questões que motivam governantes e oposição são os burros, esses simpáticos animais, que tanto quanto sei deveriam ser bem mais respeitados aí, onde têm um papel fundamental nalgumas zonas onde foram promovidos ao estatuto de aguadeiros “independentes”. Por cá, não há animais de cabelo a estimular o suposto debate político, mas há muita caricatura, onde os burros cabiam perfeitamente. Deixa-me advertir-te que se passares um ano sem regressares, corres o risco (embora pouco provável, segundo as sondagens) de encontrares o teu país amputado. Com menos duas ilhas.

Caro amigo

Nas minhas voltinhas pelas ilhas cabo-verdianas tenho visto burros em quase todo o lado. Na Boavista são aos magotes mas também os encontras em Santiago e mais ainda em Santo Antão, onde até parece que servem de refeição, não sei se depois de cumprido o serviço ou ainda tenrinhos. É de burros que te falo hoje.

Amargurado Fernando,
sinto nas tuas últimas cartas uma mistura de deslumbramento pela beleza de que tens desfrutado e impotência para evitar o desastre natural e arquitectónico que se adivinha por aí e que tens andado a testemunhar. É universal, a lei do dinheiro. Quando se esgota um filão, há que procurar outro, e por aí fora, até secar a “vaca” por completo. E ninguém aprende com os erros dos outros. A falta de argumentos para defender o indefensável leva os políticos que colaboram na derrocada a erguer o “desenvolvimento” como uma bandeira. Nunca ouvi nenhum especificar o que isso significa. Só os ouço lastimarem-se, muitas vezes assumindo as dores alheias, quando o mar derruba bares que jamais deveriam ter sido construídos em cima das dunas ou uma chuvada forte inunda casas e destrói a vida das gentes. Pelo que vejo à volta, vai continuar a ser assim. Por mais que se fale, se escreva ou se grite. Mais construção, mais impostos - é o lema que todos perseguem, mas que nunca nenhum tem coragem de assumir.




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