Archive for Abril, 2008

Horror

Foto APAIndignado Fernando,
compreendo perfeitamente a tua revolta e calculo que não seja mesmo nada fácil lidar com essas situações que relatas. Calmo como és, não consigo imaginar como seria eu a lidar com esse modo de estar na vida que perdura aí. Pode não ser admissível, nem sequer compreensível. Só que desaparece quando nos surge um cenário como o que atira para as trevas um dos países que apresenta dos melhores indicadores de nível de vida em todo o Mundo. Já percebeste que venho falar-te da Áustria e do que me perturba saber que um país assim, que funciona, bem organizado, apontado como exemplo dos avanços da civilização, origine monstros como este agora descoberto que manteve a própria filha fechada numa cave 24 anos, a violou e teve dela sete filhos. Se tudo fosse comparável, descer as escadas de vela acesa porque os vizinhos ignoram o que é viver num prédio e se acham espertalhaços em não pagar o condomínio seria uma festa de arromba.

Caro amigo

Hoje vou continuar à volta do mesmo assunto da carta passada. E vem a propósito que está cá, desde ontem, o presidente da ASAE, António Nunes, que vem aqui assinar uns protocolos de cooperação. Chegou ontem, mas se tivesse poderes para isso acho que ainda estaria no aeroporto, para aí no terceiro livro de multas.

Paciente Fernando,
neste fim de semana prolongado não me fui plantar em nenhuma sala de cinema. Quiseram as contingências que viajasse, atravessasse o Baixo Alentejo do litoral para o interior, o que, tenho que te confessar, daria um grande filme. Uma espécie de “Através das oliveiras” à portuguesa. Qual câmara fixa no carro e o génio do iraniano Abbas Kiarostami teria produzido um conjunto de belas imagens com um fio condutor assegurado pela estrada que iria deliciar gente como tu, que gosta de ver compor uma boa história no écrã, com pinceladas, tornando especiais momentos aparentemente banais.

Caro amigo

A esta hora que me estás a ler, se o fizeres pela manhã , a Praia é uma cidade a dormir, porque a festa, à hora que te escrevo, está para durar. Mas não é dela que te vou falar, antes do filme A ilha dos escravos. E por falar em Para durar…Imaginas que passei quatro horas naquela sala? Manoel de Oliveira ficaria roído de inveja não achas?

Festivaleiro Fernando,
por aqui não temos o Festival da Gamboa, mas também há festa: começou o desfile de atracções e música muito variada que nos proporciona o maior partido da oposição, o PSD, com a convocação de eleições para um novo líder. O cartaz promete uma exibição que vai misturar vários géneros musicais, numa grande maratona com arremedos de luta livre que vai encher páginas e páginas de jornais e ocupar horas de telejornais como jamais algum festival com esse verdadeiro nome consegui almejar.

Caro amigo

Escrevo-te no dia em que começam por aqui os festivais de Verão, hoje o da Gambôa, aqui mesmo na Praia, e lá mais para o Verão os de S. Vicente e do Sal. Pensei também escrever-te sobre o Rui. Mas dizer o quê que não tivesses dito já? Só me lembrava de uma frase que sempre ouvi à minha avó: nós não somos nada!

Amigo e camarada Fernando,
hoje venho escrever-te com um sentimento com que nunca o fiz: uma profunda tristeza. Morreu o Rui Moreira e ainda estou para acreditar. Nem espreitei para o caixão. Assim vou iludir-me mais tempo, eu sei, mas às vezes é mesmo preferível viver na mentira. Revoltam-me as injustiças e, se calhar, este mau estar que sinto deve-se também a isso, à convicção de que ele não merecia ser arrastado da vida, aos 46 anos. Para quem gostava tanto de viver, só pode ter sido assim que foi levado do meio de nós, dos que vão achar muita falta dele, mesmo quando se conformarem com a ideia.

Caro amigo

Não sei se é política isto de que te estou a falar hoje. Sei que é um assunto que me faz alguma confusão, até pela persistência com que surge por aqui. E não penses que é a imprensa que o levanta. São os políticos mesmo, os ditos com responsabilidade. Falamos de narcotráfico e ligações ao poder.

Paciente Fernando,
consegui, consegui! Volto a falar-te de política, mas desta vez por um bom motivo. É certo que não aconteceu em Portugal, foi aqui ao lado, em Espanha, mas ter ocorrido revela por si só um avanço que vai ficar registado nos manuais de história da política. O primeiro-ministro socialista espanhol, Rodríguez Zapatero, que perdeu a maioria absoluta nas últimas eleições legislativas, empossou uma mulher, grávida de sete meses, no cargo de ministro da Defesa. Mando-te a foto para veres Carmen Chacon, uma catalã de 37 anos, a passar revista às tropas em parada.

Caro amigo

Podia falar-te da campanha eleitoral aqui, de mais um episódio das acusações entre os dois maiores partidos, de Jorge Santos, da oposição, acusar o governo de gastar 22 mil contos do erário público em campanha eleitoral. Mas não quero. Cansa-me a política. Deixa-me falar-te de Césaire.




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