Archive for Março, 2008
O homem a quem injectaram um altifalante
0 comentários Publicado por Fernando Peixeiro 17 Março 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
A água é das coisas mais preciosas que temos aqui, mais do que a luz, nunca se esqueça de uma torneira aberta. António deixa-me o aviso depois de já lhe ter desmontado a instalação telefónica e atacado a chave de fendas o contador de impulsos, que esventrei encima da máquina de café expresso. António só pode ter um grande coração. Ouve-se.
Repartido Fernando,
não quero criar-te água na boca, mas acabei de me confrontar com um prato de espargos com ovos. Um petisco como já tinha saudades. A um alentejano custa passar muito tempo sem momentos assim: um bom pitéu, bela conversa, velhas amizades, um copo. Depois avançou uma farinheira, mas já a senti mais afastada, embora saborosa. Faltou o vinho, a bebida por excelência de quem gosta de conviver em redor de um petisco. O resto são conversas. Imprescindíveis.
Caro amigo
O que pensas de três dezenas de polícias a cercar um tribunal, onde está outro polícia acusado de homicídio, a tentar que ele não vá para a cadeia? À primeira vista é básico não é? Mas na verdade é mais complicado do que parece. As coisas têm tantas maneiras de ser vistas que às vezes nos baralham e se baralham.
Já fez um ano que o Atlântico expresso iniciou o vai-e-vem entre o Norte e o Sul, carregado de histórias, notícias, opiniões ou meros desabafos entre duas pessoas que têm em comum, entre outras características, o facto de passarem a vida a escrever…notícias. Um na cabo-verdiana Cidade da Praia, outro em Lisboa. O “navio” construído a quatro mãos que leva um ano de navegação é uma forma de atingir outros portos, eventualmente outras latitudes da escrita, retomando o velho hábito de fixar ideias: antes no papel, com as cartas, agora através das novas tecnologias. O objectivo e a justificação serão os mesmos: o prazer de passar a definitivo as coisas boas, as menos agradáveis e as outras que se vão atravessando no nosso quotidiano. Vai ser assim enquanto quisermos e tivermos gosto na troca das palavras, mais ou menos arrumadas.
José Sócrates Pinto da Costa
0 comentários Publicado por António Martins Neves 14 Março 2008 em Portugal.

Cafeinado Fernando,
fiquei verdadeiramente agradado com a forma como assinalas-te que a nossa troca de correspondência já leva uma ano. Um “vício prazenteiro”, diria alguém superiormente autorizado a afirmá-lo. Como não estou nesse grupo, resta-me manifestar o quanto apreciei o modo como quiseste deixar vincada a dita efeméride. Não vou responder nesse tom tropical e descontraído, como gostaria, nem falar de coisas agradáveis e belas, como prefiro. Quero antes ser muito politicamente incorrecto nos tempos que correm e aproveitar o lastro que este ano me deu para te transmitir uma ideia que me anda a remoer há alguns dias. Vou falar-te das semelhanças - senta-te, caso estejas de pé – que encontro entre José Sócrates e Jorge Nuno Pinto da Costa.
Caro amigo
Um ano depois de termos iniciado esta nossa correspondência, e porque temo que os balanços me possam deixar enjoado, deixo-te aqui apenas 12 momentos de café. A bebida, também, mas mais o lugar. Um por cada mês. Se continuarmos prometo para o ano mandar-te 24.
As mulheres dos senhores ministros
0 comentários Publicado por António Martins Neves 12 Março 2008 em Portugal.
Atento Fernando,
acerca da capacidade de sofrer das pessoas, lembro-me que aqui há uns anos, era primeiro-ministro António Guterres, houve uma carga policial contra uns operários da Marinha Grande. Gente a refugiar-se na Câmara local e os guardas da GNR, irados como parecem ficar naquelas situações a espancarem tudo o que lhe aparecia à frente. Umas máquinas de dar porrada, até em quem estava a lutar para não perder o emprego na empresa vidreira, cujo nome não arrisco por não ter a certeza. Um “espectáculo” sempre lastimável num regime que se rege por normas democráticas.
Caro amigo
Fiquei cheio de vontade de ver a tal novela de que me falaste. Vá lá explicar-se isto. É como com os filmes, quando se diz muito mal de um filme, mas muito mal mesmo, fica sempre a apetecer-me ir ver se é assim tão mau. Deve ser típico nosso. Lembras-te de que criámos o Zé Cabra?
Espectador Fernando,
já vi telenovelas de que gostei, brasileiras, quase todas. Lembro-me do Bem Amado e outras do género que se lhe seguiram, mas nunca fui um apaixonado do género. Gosto de ir deitando o canto do olho e percebendo o que as televisões vão exibindo naquela matéria de ficção. Tanto assim que gostaria de te falar hoje do programa que os portugueses andam a consumir em doses que parecem pouco recomendáveis e a criar dependências desaconselháveis: Fascínios, uma telenovela exibida pela TVI. Para melhor apreender o que leva as pessoas a optar por aquela “obra” de ficção, tentei colocar-me no lugar delas, um exercício difícil de concretizar, a não ser também ficcionando… O cenário maioritário é o de quem passa o dia a trabalhar, com os inerentes problemas, as chatices do costume, a correria para voltar a casa, preparar o jantar, tratar dos filhos…enfim!
Caro amigo
Paulo Jorge, 15 anos, mora num dos bairros degradados da periferia da capital cabo-verdiana e sonha ser jogador de futebol, como Simão Sabrosa. Anda na escola mas o seu mundo gira à volta de uma bola, nova desde ontem. “Pirocho”, o nome por que é conhecido, é o mais popular elemento do grupo Blitz Club, uma associação juvenil de Vila Nova, bairro pobre da Cidade da Praia, com problemas de álcool, droga, e onde o absentismo escolar é elevado.


