Archive for Fevereiro, 2008



Pesadelo

Humanista Fernando,

imagino-me a andar numa rua muito movimentada de um país da África Ocidental ou mesmo Oriental. Cruzo-me com mulheres bonitas, aquele ébano quase indiscritível, com vestidos de padrões alegres e de uma criatividade difícil de equiparar. Parece uma situação encantadora, não é? Pois…Só que, muito provavelmente, metade delas ou a grande maioria foram impedidas, em criança ou adolescentes, de serem verdadeiras mulheres. Amputaram-nas sexualmente, tirando-lhes esse factor fundamental na vida de qualquer humano e tornaram-nas objectos para os homens. Nunca hão-de saber o que é prazer e muitas vão morrer quando ficarem grávidas, depois de sofrerem horrivelmente. Grande pesadelo.

Caro amigo

Há coisas que se disseram, ou escreveram, há mais de 300 anos e continuam actuais. Para mim, o que demonstra não é que esses que o disseram ou escreveram eram uns visionários ou com uma inteligência acima da média. Para mim é, pelo contrário e infelizmente, demonstrativo de que não somos capazes de evoluir.

Empoeirado Fernando,

ainda bem que me falas da natureza porque quando li a tua última carta vinha preparadinho para te contar uma estória que me aconteceu há dias numa natureza também invulgar mas igualmente surpreendente, embora sem pós que se vejam.

foto de omar camiloCaro amigo

Sinto que qualquer dia me começam a nascer umas ervinhas na cabeça e não sei se já não tenho musgo nos pulmões. Nos pulmões e noutros sítios assim… mais húmidos, onde se um dia destes aparecerem uns cogumelos não me espanta. E mais. Quando espirro estou sempre à espera que me saia um furacão pela boca.

Comentador Fernando,

para casa, nem que sejam pedras! Conheces este ditado? Pois os caboverdianos devem conhecê-lo e segui-lo à risca, pelos vistos. Mas, a propósito da irritação do primeiro-ministro daí, venho também falar-te da política daqui, mas noutro patamar, como usam dizer os seus actores.. Este fim-de-semana um antigo ministro fez manchete em dois jornais, histórias que não metem sinais roubados mas outros pormenores mirabolantes e…preocupantes.

Caro amigo

Discursos há muitos… Lá isso… Mas se for o próprio primeiro-ministro de um país a dizer que o que falta aos seus conterrâneos é cidadania tem outro peso. José Maria Neves, o chefe do governo de Cabo Verde, ainda esta semana o disse. E exemplificou com um caso de ficar de boca aberta.

Reclamante Fernando,

dão-te aí água pela barba essas questões que deviam ser comezinhas aqui, como os direitos dos consumidores. Claro que, apesar de tudo e mais da evolução e desenvolvimentos anunciados, as coisas não correm em Cabo Verde como em Portugal. É um facto. Agora que aqui haja situações igualmente difíceis de aceitar nesse arquipélago é que é quase uma notícia. Pelo menos justifica um veemente protesto. Foi o que fiz e gostaria de te dar a conhecer uma epopeia que protagonizei com a maior empresa de transporte de passageiros de longa distância existente no país, privatizada, daquelas modernas…

Caro amigo

Mário Matos, até ao fim-de-semana passado secretário-geral do PAICV, partido que sustenta o governo cabo-verdiano, vive há quatro meses em Lisboa. Um exílio forçado. Como ele vivem mais umas oito dezenas de cabo-verdianos aí. Forçados. Porque se voltarem para Cabo Verde morrem. Tão simples como isto.




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