Archive for Fevereiro, 2008

Caro amigo

Já te falei algumas vezes aqui da praia de S. Francisco. É uma das mais bonitas de Santiago, calminha, com um restaurante simpático ao pé onde se come um delicioso peixe grelhado, maior do que aqueles que te rodeiam, curiosos, quando vais tomar banho. Era o último sítio onde podias imaginar um tiroteio. Era.

Praia da Costa Alentejana

Despojado Fernando,

já te tinha falado que por cá havia umas nuvens carregadas que estavam a impedir que se distinga o que é interesse público e quando algo se denomina assim mas só beneficia investidores cuja actividade, que não questiono, é ganhar dinheiro. E não fui só eu a achar isso. Os tribunais seguiram a mesma lógica e há dias mandaram parar as obras de um grande empreendimento turístico a ser erguido na Costa Alentejana, a sul de Tróia. Foi o primeiro de dois projectos do género a receberem o selo de “Interesse Nacional” (PIN) e logo esbarraram quando duas associações ambientalistas argumentaram em tribunal contra a fundamentação usada para tais edificações em lugares sensíveis na perspectiva natural.

Foge a sete pés

Caro amigo
Apesar de tudo o que me dizes ainda sou dos que se sentem mais seguros ao lado de um polícia do que de um ladrão. Sei que às vezes há histórias macacas (não sei de onde vem o termo mas acho que fica aqui a matar – olha… outro que também não sei de onde vem). Mas já, em trabalho, andei a espreitar um dia, assim meio disfarçado de polícia, imagina, as condições em que eles vivem. E não lhe invejo a sorte.

Livre Fernando,

um debate que continua por realizar de uma forma séria aqui é sobre o desempenho das forças de segurança. Elas queixam-se dos cidadãos e dos juizes que soltam os bandidos, as pessoas de serem maltratadas pela polícia, tudo indícios de uma sociedade à toa. E pior do que não se fazer o debate, nunca nenhum governo tomou medidas para resolver esse problema grave que as pessoas sentem no dia-a-dia. Um polícia saído da escola onde aprende a ser agente da autoridade ganha 700 euros por mês, tem que dormir muitas vezes em camaratas ou quartos alugados e tem a família a centenas de quilómetros. Opta pela farda tantas vezes para fugir ao desemprego. Mas com tudo isto, ministro da respectiva tutela diz que conseguimos ser dos países mais seguros do mundo…Milagre? Não vejo outra explicação…

Caro Fernando,

o Luís Nascimento, um jornalista e “velho” amigo que costuma vir ver a nossa correspondência, escreveu-nos e manifestou salutar discordância com a carta que te escrevi sobre Fidel de Castro. Como aconteceu noutras alturas, aqui te deixo o texto recebido.

Um abraço.

António Martins Neves

Caro amigo

Da janela do meu quarto vejo o mar. Não está limpo o céu mas as nuvens altas não conseguem impedir o luar e por isso da janela do meu quarto vejo o mar e a espuma branca a bater nas rochas. Os grilos e as cigarras acompanham, sem se cansarem também, o som das ondas.

Avisado Fernando,

seria uma anedota se não tivesse ocorrido realmente: um deputado do PSD disse que era bem pago e tinha boas condições para trabalhar. O que é que ele foi dizer! Os colegas obrigaram-no a retractar-se publicamente e a voltar atrás nas afirmações pelos parceiros de bancada. Um jornal gratuito, dos muitos que pululam por aqui, até fez manchete com a história com base num despacho da Agência Lusa, mas assinado por uma jornalista deles… Aquele antigo problema dos muitos jornalistas que se apropriam do trabalho alheio só porque o pagam e por isso acham que passa a ser deles a notícia que outro escreveu. Chama-se plágio. Se tivessem que ir a tribunal ia ser lindo…

Caro amigo

Da janela da minha cozinha vejo o prédio iluminado das Nações Unidas na Achada de Santo António, colina em frente. É o único em toda esta parte da cidade, morta, escura, e se não fosse Cabo Verde até um pouco fria.

Fidel arreou

Democrata Fernando,

hoje acordei com uma bela notícia, coisa rara. Fidel Castro decidira “renunciar” ao cargo de líder/comandante/ditador de Cuba. Já não era sem tempo. Cinquenta anos faz lembrar o que aconteceu por cá, e as ditaduras são regimes totalitários, quer os apelidem de esquerda ou de direita. Acho que a liberdade é uma característica fundamental para qualquer ser humano se realizar na plenitude. E quando outro igual lhe retira essa “benesse”, independentemente do que quer que argumente, estamos em presença de um tirano que impede, como foi o caso cubano, de pensar pela sua própria cabeça. Ou achas o mesmo do que eu ou és um traidor, realizava ele na prática, que tinha quase 100 por cento dos votos em eleições onde participava quem o regime que controlava com mão de ferro (prisão, tortura) permitia. Recuando uns anos, aqui em Portugal encontramos uma realidade semelhante.

Caro amigo,

quando a noite da capital de Cabo Verde se ilumina com a Lua, leio “O último acto em Lisboa”, de Robert Wilson, à luz das velas. São os dias, as noites , sem iluminação, sem água, sem telefone. País de rendimento médio, exemplo de África, pois então. Obrigado Robert Wilson.

Um escuro abraço.

Fernando Peixeiro




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