Archive for Janeiro, 2008

Fumador Fernando,

não deves ter dado por ele, como eu também não, mas quando voltares a Portugal, se continuares a fumar, vais poder entrar em muitos poucos edifícios e locais fechados. Na esmagadora maioria vais encontrar um autocolante vermelho à porta que diz “Não fumadores”. Claro como a água: quem fumar não pode entrar. Pode parecer um preciosismo, mas não é, e fui alertado para esta situação por outro amigo fumador, o João Vasco Almeida, que me dizia, à beira do pânico, que quase todas as portas lhe estavam vedadas por fumar.

Caro amigo

A cena passa-se na famosa praça Jemaa-el-Fna, em pleno centro de Marraquexe, Marrocos. Ao cair da tarde o lugar é uma babel que atrai milhares de turistas, como Raimundo, que não resiste a tirar uma fotografia a um encantador de serpentes. Ele, o encantador, está lá para isso. E mal soa o disparo estende a mão, a exigir uma moeda. Uma não, que é pouco. Raimundo faz-lhe a vontade mas o encantador não fica satisfeito, quer saber quem é aquele turista tão sujo, tão rasgado, tão cansado. Raimundo, num perfeito francês, conta-lhe que veio de Paris, a pé, e que vai até Cabo Verde. O encantador espanta-se e depois encanta-se. A moeda, faz questão, volta para o bolso de Raimundo.

Memorizado Fernando,

o que primeiro retive daquela viagem foram imagens que me assustaram, porque ao anoitecer, se viam focos de incêndio em muitos locais da ilha, e, depois de aterrar, o cheiro a queimado, na capital de Timor-Leste. Estava ali a herança de Suharto, o ditador a quem os americanos deram luz verde para invadir a antiga colónia portuguesa. Destruição, destruição, terror, terror e milhares de pessoas levadas como gado para onde os seus herdeiros quiseram e outras mortas com a mesma atitude logo ali, sem mais.

Caro amigo

Há uns anos dormi uma noite nas margens do lago Naivasha, no Quénia, onde ao fim do dia pude admirar o espectáculo que é a saída dos hipopótamos para a janta, o que ainda hoje me dá que pensar. Não é que aqueles monstros passam o dia envergonhados debaixo de água e só vêm à superfície ao fim do dia, todos ao mesmo tempo, para nadar para terra e comer erva a noite toda?
Há uns anos também dormi umas noites em Timor-Leste, em Dili principalmente mas também numa casa encima de uma árvore, em Laga, em Suai ou Lospalos. Que tem uma coisa a ver com a outra? Perguntarás.

Ponderado Fernando,
a loucura que grassa por aqui é outra: não a violenta e gratuita, mas a institucional. São aqueles que recebem para nos tratar bem que acabam a desprezar-nos de tal modo que depois as vítimas morrem. Aponta-se o dedo ao Governo, mas depois há erros dos técnicos. Atente-se o caso do homem de 79 anos a quem foi dada alta no Hospital de Vila Real e colocado num táxi, quase nú, apenas coberto com um casaco que a mulher despiu para o cobrir, de acordo com a RTP. Voltou poucas horas depois, para morrer na mesma unidade que o mandara para casa.

Caro amigo

A morte é sempre uma coisa triste mas há casos absurdos. Imagina um homem que passou um ano num cenário de guerra, a cumprir serviço militar, a conviver com as balas e as bombas, e que depois no dia em que regressou a casa, ao atravessar a rua para ir beber café, foi atropelado mortalmente por uma motoreta. É a isto que eu chamo uma morte absurda.

Melómano Fernando,

desconheço se já chegou aí a Cabo Verde esta maravilha que se gravou por aqui na Aula Magna da Universidade de Lisboa. Como não gosto de arriscar quando é a sério, envio-te estas obras primas de execução e de bem tocar. Sim, é o Tito Paris, o tal que não te respondeu ao que pretendias nem é muito brilhante a dar entrevistas. mas canta desalmadamente bem, toca, e reúne aqui, como é fácil a um cabo-verdiano, um naipe de músicos invejável. Assim sendo, em vez de paleio, hoje quero brindar-te com obras primas sonoras. Outros a sugerirem o que me vai na alma. Bonito, bom e ao alcance de todos. Felizmente, viver proporciona-nos momentos assim, que temos que repartir.

Um musical abraço.

António Martins Neves

Caro amigo

Por aqui já é tarde quando escrevo isto e venho só deixar-te uma triste notícia. Tenho vivido contra a lei neste último ano e se as autoridades forem competentes serei preso a qualquer momento. Pelo menos por falcatrua, apoderamento de dinheiro de outros, falsificação de cheques, simulação de identidade e não sei que mais. Se não receberes notícias minhas nos próximos tempos manda-me um pacote de Lucky Strike para a cadeia central da Praia.

Adaptado Fernando,

medo, medo terá sentido o então ainda príncipe regente português que se viu obrigado a fugir para o Brasil para salvar o Império do princípio do Século XIX. D. João VI terá levado 15 mil cortesãos atrás de si para o Brasil, para fugir do imperador francês Napoleão Bonaparte e dos espanhóis. Tu só mudaste (um) pouco de vida e voluntariamente. Ele foi obrigado. Do mal, o menos: deu origem ao Brasil como ele é hoje, “o único país que deu certo na colonização portuguesa”, como me dizia uma vez um brasileiro com responsabilidade na comunidade verde-amarela aqui em Lisboa.

Medo

Caro amigo

Às vezes as pequenas coisas, os pequenos dias, tornam-se grandes. Às vezes ficam pequenos de mais, de tanto querermos que durassem e durassem e durassem. Às vezes uma semana passa tão depressa. Às vezes dura uma eternidade. Faz amanhã um ano que aqui cheguei. Passou depressa. Os momentos, as semanas, os anos, às vezes são assim.




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