Archive for Dezembro, 2007

MelroAmbientalista Fernando,
quero acreditar que essa matança de cagarras não voltará a repetir-se aí em Cabo Verde. Um realidade dessas tornada pública no mundo inteiro é difícil de se manter e mais ainda de se prolongar. É vergonha de mais para qualquer estado, e ainda mais democrático como é o caso. Confesso que nunca vi tais pássaros, mas ouvi-os à noite, nos Açores, esse “paraíso” na Terra que a maioria das pessoas desconhece. Numa terra fascinante chamada Lajes do Pico. Já tinha ouvido falar, mas nunca fora confrontado com a algazarra das cagarras, que nos Açores são aves marinhas com actividade apenas de noite. Essas daí, como são primas, não sei se têm hábitos nocturnos ou diurnos. Nem esclareci essa dúvida numa rápida investigação na Internet.

Caro amigo

Agora que o Natal já lá vai sinto-me na obrigação de te falar de um assunto triste. Em Cabo Verde, duas semanas por ano dizimam milhares de aves em vias de extinção, numa reserva natural, à vista de toda a gente. Isto é, acho eu, mesmo muito triste.

Prendado Fernando,
propus-me a um exercício raro em mim: encontrar uma prenda original para te oferecer, assim à laia de tradição natalícia, algo que me seduz quase nada. Não encontrei. Ou melhor, encontrei mas não te posso assegurar o prazer de tamanha desbunda gelada,  apesar de seguramente ser um dos maiores divertimentos de que usufruis-te até hoje. Fica prometido para quando me sair o totoloto, o último reduto da nossa esperança. Iremos os dois por aí acima até à Finlândia…
Terá que ser no Inverno, para sabermos o que é frio a sério e, quem sabe, ainda escrever algum livro sobre a viagem ou uma carta mais alongada. Tu levarás aquelas botas com léguas e léguas de pé, eu umas que nunca me deixaram mal visto em parte nenhuma do mundo…e o que vamos fazer?, perguntas tu. Nada mais nada menos do que tirar a carta de condução de rena. Verdade.

Caro amigo

À distância de três horas e meia e eis que estou noutro mundo. E é deste mundo que desejo um bom Natal. Nunca tive oportunidade de o fazer assim. Também com tudo o que ele acarreta nem deves ter muito tempo para ler cartas e por isso te proponho: neste Natal vamos deixar as conversas, as memórias e as ideias a descansarem à lareira. Dia sim, dia não. Voltamos ao normal lá para dia 07 de Janeiro.

SICJornalista Fernando,
o escritor e conhecido jornalista Armando Batista-Bastos (BB) vai sentar-se no banco dos réus de um tribunal da Madeira acusado de ter insultado o homem que lidera aquele arquipélago há 30 anos e chamou quase tudo a quase todos, com destaque para os jornalistas que escrevem notícias que lhe desagradam. Quando BB estiver a ser julgado, vou sentir-me ao seu lado.

Caro amigo

Imaginas como é um país onde se pode ir à praia todo o ano? Passar o dia de Natal a dar mergulhos ou fazer a passagem de ano na praia? Em fato de banho? Aqui em Cabo Verde é assim. É certo que a vida é difícil, que o Albertino está há um quarto de século à espera de uma operação, mas é bom este calor quando a Europa treme de frio.

Atento Fernando,
desastrosa história, a de Albertino, apesar de ser um magnífico retrato do básico que continua por fazer em prol das pessoas. É vulgar e rotineiro dizer isto, mas acontece aí e aqui, onde também se esperam anos pelo raio de uma operação que leva pouco mais de meia-hora a realizar. E o paciente vai para casa no dia seguinte. Será triste a terra que tristes mandadores tem ou será das pobres gentes?

Albertino

Caro amigo

Admiro a coragem das pessoas que, não tendo sorte na vida, conseguem tirar felicidade do pouco que têm. Não sei se Albertino é um homem infeliz mas não me parece. Tem 36 anos, muitos projectos, e o prognóstico de um médico que lhe disse que, com cautela, viveria até aos 40. Talvez seja só uma previsão, disse-me ele.

Ó tu que fumas!

Fumador Fernando,
da próxima vez que aterrares aqui na lusa pátria vais ter que pensar sempre que meteres a mão ao bolso para tirar o cigarrito…E vai ser logo à chegada no aeroporto, a partir de 01 de Janeiro. Nada de fumo. Mesmo que saias de um daqueles aparelhos que poluem e fazem mais pela destruição do Planeta do que bando de inocentes, meter um cigarro à boca é que é quase como puxar de uma arma de nove milímetros (proibida a civis).

Caro amigo

Sempre considerei os domingos dias cinzentos, próprios para descansar, para ficar a pasmar, de preferência em casa. Se é Verão as praias estão impossíveis, se é Inverno está frio lá fora. Se tens de ficar algum dia em casa que seja o domingo. Hoje, quando te escrevo, falo-te do meu dia. Não tem interesse, não abras o resto. Mas não é triste.




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