Archive for Novembro, 2007



Viajado Fernando,
o relato que fizeste dessa mulher desejada aí nas ilhas e que conhece o mar melhor que o seu corpo remeteu-me para tempos em que as pessoas eram unidas esobreviviam por isso mesmo. Silvina nunca há-de enriquecer, do mesmo modo que o primeiro médico que eu tive na infância trabalhava 16 horas ou mais por dia e nunca teve mais que uma casa de primeiro andar em lugar nobre numa vila alentejana e mais alguns bens que não lhe davam o rótulo de rico.
Pode parecer-te disparatado,  mas, cada um no seu tempo, a missão de ambos foi dar aos outros aquilo que eles precisavam.

Caro amigo

O mar aqui entre as ilhas nem sempre é calmo. Já o tinha sentido quando, na semana passada, viajava de barco para o Maio mas tive a certeza ao ouvir a voz de mulher que comentava: “o mar tá mau hoje”. Quando a vi, à popa do navio, junto à amurada, e quando uma onda a molhou quase até aos joelhos, sem que parecesse dar por isso, tive a certeza de que sabia do que falava.

Automobilizado Fernando,
não me vais ver com a cara pintada de verde, nem amarelo nem outra cor qualquer quando nos reencontrarmos. Mas há quem esteja a pensar em coisas do género e a querer carimbar as pessoas de acordo com os seus comportamentos. Irei recusar-me a isso, portanto a maior diferença que podes encontrar é mais umas rugas ou uns cabelos brancos quando me puseres a vista em cima.
 O facto é que uma empresa privada propôs ao Governo que obrigue os automobilistas a exibir um selo de acordo com o seu “passado” ao volante”. Quem nunca causou acidentes nos últimos anos cola um selo verde no carro, quem originou algum “sinistro” na estrada é obrigado a afixar o amarelo e quem se “espetou” várias vezes terá que mostrar um vermelho ao mundo.

 

Caro amigo

George Monk é um inglês de 90 anos, que serviu quando jovem na marinha britânica. Um dia o barco em que trabalhava foi atacado por um submarino alemão e desapareceu no Atlântico. O homem foi salvo por cabo-verdianos e agora, 66 anos depois, veio cá agradecer. Também me fascinou, este senhor!

Frontal Fernando,
eis-me regressado a este prazer de te contar o que me move e mais o que não me passa despercebido. Neste caso para te falar de um contador de histórias, figura pública, um sucesso a escrever. Vendeu 300 mil exemplares de uma só obra, “Equador”, e agora “ameaça” repetir a proeza. Já percebeste que te falo de Miguel Sousa Tavares, a que muita gente gosta de apelidar de controverso pelo simples facto de ter opinião própria e não abdicar dela, ar austero e verbo fácil mas ajustado. Deves ter percebido há muito que gosto de falar de pessoas, de personagens, de gente que faz o mundo dar um passo só que seja. Outros dão autênticas corridas,como é o caso. Pode ser só pelo divertimento que proporcionam, pela originalidade das patifarias inocentes, pelo modo invulgar de estar na vida. Mas queacrescentem algo ao que já sabemos. Miguel Sousa Tavares, para mim, vai à frente neste grupo das pessoas de quem gosto de falar.




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