Archive for Novembro, 2007



Internacional Fernando,
hoje escreve-te um amigo com azia, cansado que está das hipocrisias e do mentiredo, como crescemos a ouvir dizer, dos grandes líderes mundiais. Causaram a morte de desenas ou centenas de milhares de pessoas no Iraque e entre os seus próprios concidadãos e agora têm o descaramento de vir dizer que foram enganados ou que se enganaram. Não dizem por quem nem porquê. Fica claro, no entanto, que esses supostos dirigentes que querem ser referênciaséticas e morais do mundo atribuem diferentes valores à vida: se for na terra deles justifica apontar mísseis e disparar. Já se for num pais pobre…morrem.

Caro amigo

Não sei como um pirata informático se parece, não sei como faz para ser pirata, não sei o que o move, não sei o que ganha com isso. Mas imagino-o feio e profundamente infeliz. Sem amigos, sem família, sem vida, sem objectivos. Quero-o de pele macilenta e olheiras. Quero-o frustrado, com insónias, com caspa e com mau hálito. Quero que o “nosso” seja assim.

Distante Fernando,
já ouviste falar sobejamente do tema, mas gostaria de te fazer este desabafo que anda a remoer-me a consciência de há semanas a esta parte: Lisboa, a terra onde residimos, vai ter provavelmente a maior concentração de ditadores por metro quadrado já conseguida numa cidade do dito mundo ocidental. Será a 8 e 9 de Dezembro na Cimeira Europa-África, um dos eventos mais badalados da presidência portuguesa da União Europeia (UE), que finda a 31 de Dezembro.

Sequíssimo Fernando,
tu que pensavas que o tempo dos piratas já tinha passado, fica sabendo que eles continuam a existir e quiseram afundar o navio que transporta a nossa correspondência. O nosso e os restantes da frota. Para quê? Para nada. Nenhuma das embarcações transporta ouro, especiarias ou pedras preciosos. Apenas informação ou entretenimento útil a todos.

Irreverente Fernando,

há dias assim, de sorte. Mal se sai à rua e passa-nos à frente dos olhos o encanto de qualquer desses políticos e dirigentes governamentais obcecados com o controlo da vida privada das pessoas: nada menos que um rapaz com uma tatuagem no pescoço, atrás. Um código de barras bem definido e clarinho como os que ostentam qualquer pacote de margarina ou molho de salsa do supermercado.
Qual cartões magnéticos para reunir todos os documentos pessoais, qual chips debaixo da pele. A solução ia ali naquele pescoço desgargalado.

Um belo técnico

Caro amigo

Uma curtíssima carta para falar mal. De quem? Do meu “ódio de estimação” aqui, a Cabo Verde Telecom. Mudei de casa, como sabes, e faz amanhã uma semana tratei de me precaver e mandei transferir a minha linha telefónica para a nova morada. A moça, até simpática, disse-me assim: o telefone é cortado hoje, a transferência o mais tardar até quarta-feira. De que semana? Não disse.

Temperado Fernando,
achei hilariante e muito inspirada essa tua carta sobre a importância que o tempo tem na vida das pessoas, mesmo que elas não dêem por isso. Mas quase inédito foi o que ouvi numa gravação telefónica da Protecção Civil esta semana: o país a arder e com temperaturas inusitadas de 25 graus à beira do Inverno e eles a advertirem a população para os problemas do frio e da queda de neve.

Caro amigo

Tenho visto, quando posso, as notícias daí que dão conta de uma vaga de incêndios sem precedentes, em pleno mês de Novembro. Não é segredo para ninguém que o tempo está mudado e dize-lo já se torna até enjoativo. Mas o tempo sempre foi um bom tema de conversa para quando não temos mais nada para dizer. Tens de concordar.

http://www.portugal.montranet.com/portugal/monsaraz/1.jpgRealista Fernando,
é o progresso, ouvimos nós dizer à boca cheia de políticos e investidores. Aí como aqui, a imaginação dos eleitos, investidores e banqueiros não vai além desse chavão, que passa exclusivamente pelo turismo. Em resumo: conseguir o dinheiro daqueles que ainda o têm e tornar isso numa forma de vida, dando em troca um bilhete postal um metro de areia e um caldeirão de água salgada.
Não me apanhas desprevenido nem se trata de uma evidente postura a que esteja desatento. As características naturais tornaram-se um maná e quem tem dinheiro para investir e ganhar mais – uma postura legítima – considera que neste momento a natureza é onde mais se multiplicam os cifrões. Seja onde fôr. Quando se acabar, vai ser como os eucaliptos.

Vê as fotos hoje

Caro amigo

Cabo Verde, como sabes, é composto por nove ilhas habitadas, cada uma com as suas características. Umas com areias brancas e águas azul turquesa, planas, pouco habitadas. Outras de praias de areia preta, montanhosas. Mas todas têm algo em comum: não serão as mesmas em menos de uma década.




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