Archive for Outubro, 2007



PortugalDiárioAmargurado Fernando,
não é só aí que os pais tratam mal os próprios filhos, como sabes. Por isso hoje apetece-me escrever-te uma carta que gostaria que todos os adultos lessem. E compreendessem também. Ainda te lembrarás da Joana, do Algarve, cuja mãe e tio foram condenados a pesadas penas de prisão por terem sido considerados autores da morte da menina. Também no Porto, em Melgaço, em Viseu, há casos de crianças cujos pais foram os algozes dos próprios filhos. Malfadada sociedade esta que “produz” cidadãos que, incapazes de cuidar dos filhos, chegam a ser capazes de os levar à morte.

Caro amigo

Marloni tinha nove meses. Morreu no final do mês passado porque a mãe terá deixado pura e simplesmente de o alimentar, irritada com o marido, que a abandonou.  Por aqui diz-se que foi uma vingança. O pai também não pode falar muito porque chegou tarde de mais. Por aí, pelos casos que me falaste, parece que também chegaram tarde de mais.

DN

Linguísta Fernando,

nessa coisa dos tempos verbais estamos quase de acordo, embora eu ache que o  gerúndio dá uma noção de continuidade que pode ser bastante útil no discurso, se usado com contenção. Mas tem, como dizes, um lado negro, de que não faltam maus exemplos. Para mim, antes do gerúndio, “matava de morte matada”, como dizem os brasileiros, o verbo desenrascar, essa instituição que suporta o nosso país com  arames. Mas já que te vejo tão preocupado com esse tempo verbal, deixa-me  dizer-te que por aqui, o que foram grandes casos que apaixonaram o país  continuam ser pronunciados nesse mesmo gerúndio: falo-te no processo de pedofilia da Casa Pia e no mais recente caso Maddie.

Caro amigo

A propósito do que me falavas ontem, do muito que se promete e do pouco que se faz, não resisto a lembrar-te aquele decreto do governador do Distrito Federal do Brasil, José Roberto Arruda, que se lembrou de proibir o uso do gerúndio no governo, por ter perdido a paciência com aqueles que estão “fazendo, providenciando, estudando, preparando, encaminhando”. Aqui também já há quem defenda que o decreto devia ser aplicado em Cabo Verde.

ArrastãoVerdadeiro Fernando,
sei que a mentira tende a tornar-se uma instituição, pelo menos entre quem assumiu o papel de decidir, mas olha que as meias verdades podem não ser melhores. Hoje, quando ouvi o primeiro-ministro aqui a falar de educação ocorreu-me isso mesmo. Que não basta falar e anunciar para que as medidas se cumpram. E dizer que se vai fazer e deixar as coisas quase na mesma não será mentir mas é um incumprimento do prometido, uma falta injustificada à verdade.
Abrevio-te a história que que te quero contar relatando que este Governo anunciou, após a tomada de posse, que  todos os alunos iriam ter o mesmo horário e apoio à aprendizagem, para que as crianças do ensino básico desfrutassem das mesmas (boas) bases escolares e igualdade de oportunidades. Em suma, acabar com a diferenciação, marcante para sempre na vida, entre ricos e pobres. 

Caro amigo

No início deste mês de Outubro quero partilhar contigo aquela que poderia ser uma boa notícia, sobretudo para quem vive, como eu, isolado numa ilha, como de resto vivem isolados todos os seus habitantes. Ou para quem, eventualmente como tu, lhe passa alguma vez pela cabeça, fugir um pouco das borrascas que cada vez com mais frequência (vê o que aconteceu ontem em Espanha) assaltam esse continente e quer um pouco de sol e de paz, porque não, num destes calhaus no meio do Atlântico.

Primeiro de JaneiroCaminhante Fernando,
tu aí a desfrutar a natureza e eu aqui a vasculhar e observar os comportamentos das pessoas, os seu problemas, as suas revoltas. Senti-me subir ao alto desse vulcão e vi até o teu boné esvoaçar, mas tinha registado um momento que vivi esta semana para te contar: uma manifestação de polícias que não subiu a lado nenhum, andou sempre em piso direito no meio de prédios, mas teve um pormenor que achei marcante. Embora poucos tivessem dado por isso.

Caro amigo

Estou sentado, meio enterrado num mar de uma espécie de esferovite mas preta. Uma pedra passa por mim e eu desejo-lhe boa viagem. Não. Não estou bêbado, nem drogado, e tão pouco estou a sonhar. E isto faz sentido?

Transparente Fernando,
já dei comigo muitas vezes a interrogar-me porque são tomadas decisões sem qualquer fundamento, daquelas piores do que as necessárias para convencer um pato a atravessar um caminho. Na política, é quase todos os dias. Nalgumas alturas transpareceu a ideia de que por trás dessas nomeações/decisões estavam grupos mais ou menos secretos, mais ou menos conspirativos, completamente opacos, como a maçonaria ou a opus dei. Mas isso é só ás vezes.

A amiga vela

Caro amigo

Imagina viveres numa cidade na qual não sabes a que momento vais ficar sem água e sem luz eléctrica. Imagina que os cortes tanto podem ser a meio do almoço ou do jantar e que tanto podem durar quatro horas como 24. Imagina que depois ninguém te dá uma explicação nem justificação. A Cidade da Praia é assim.




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