Archive for Outubro, 2007



Caro amigo

Há coisas às quais não damos grande importância até as perdermos. Em Portugal, nos últimos anos, desinteressei-me da televisão, ainda que tivesse à escolha meia centena de canais. Aqui tenho, com muito má qualidade de imagem, a RTP-África e a TCV, televisão de Cabo Verde. E agora confesso que sinto inveja quando me falas desses canais que passam por aí.

Michel Giacometti em trabalho de recolhaCircundado Fernando,
entendo que te sintas acanhado aí nesses 70 quilómetros de ilha. Esse será, se me permites, um mal menor. É uma questão psicológica. Se não te lembrares…E  hoje venho contribuir para desanuviares e pensares em coisas boas e belas obras que podem ser feitas, embora acerca de assuntos menos interessantes mas deveras importantes para um país. Quero dizer-te que gostei muito do 1º episódio da séria que a RTP começou a exibir sobre a guerra nas nossas ex-colónias. Só tenho pena que não complete o retrato, discretamente, com uma grande obra que produziu no início dos anos 70 do século passado chamada “Povo que canta”, escrita pelo ímpar Michel Giacometti. Seria serviço público do melhor, a sociedade ia agradecer e os contribuintes entenderiam bem para que deve servir a televisão que todos pagamos, garanto-te.

Caro amigo

Entendo o desânimo que sentes por coisas que vão acontecendo por aí mas queria dizer-te que não penses que é só em Portugal. Nós seguimos muitas vezes o ditado de que “a galinha da minha vizinha é melhor do que a minha” mas se formos ver bem se calhar aquilo nem é uma galinha, é uma franga, e quase depenada. E não, não considerei ainda ficar por cá, a viver numa ilha.

InjustiçaAssalariado Fernando,
já tinha feito um esforço para travar a caneta e evitar este desabafo. À primeira contive-me, mas à segunda achei que estavam há muito ultrapassadas as  marcas do tolerável. Não vou pelas estatísticas: vou pela ética que falta ao presidente e fundador do maior banco privado português, o BCP. A fazer fé nos  jornais, estamos em presença de um Robin dos bosques ao contrário, que tira aos pobres para dar aos ricos.

Caro amigo

Arriscava-me a dizer que em Cabo Verde a falta de bananas causa mais problemas do que a sua existência. Estou a escrever-te num dia em que, por acaso, choveu, mas é a seca intensa e prolongada que torna este país dependente do exterior em quase 80 por cento. Aqui não são as cascas de banana que matam. A principal causa de morte tem um nome apenas, chama-se “desconhecida”.

BananaInvestigador Fernando,
hoje venho lançar-te o desafio de saber quem foram as duas pessoas que tiveram acidentes aí em Cabo Verde no ano passado causados por bananas, muito provavelmente por terem escorregado nas cascas dos populares e adorados frutos. É a estatística que o diz.  E nos tempos que correm é quase essa ciência que nos reconforta o estômago todos os dias, citada a propósito do défice, do crescimento económico, das exportações, do desemprego, uffff.  Pior que bananas.

200 cartas!

Divertidamente, atingimos a 13 de Outubro as 200 cartas. A coincidência da data com Fátima não passa disso. Só mesmo o prazer da escrita e das histórias, umas doces e outras um pouco amargas, nos trouxeram até este ponto e nos vão continuar a guiar pelo caminho. Fazemos parte da primeira confederação de blogues nacionais, a TubarãoEsquilo (http://tubaraoesquilo.pt), o que nos tem ajudado bastante e tem facilitado esta aventura com as palavras. Para assinalar a efeméride, vimos propor que assinem as actualizações. Basta colocar o e-mail na caixinha que está do lado direito da página. É fácil, não custa nada e permite receber todos os dias na caixa de correio a nossa “correspondência”.  

Obrigado.

Fernando Peixeiro

António Martins Neves

Caro amigo

É tudo uma questão cultural. Quem sabe se dessa vez, quando por sorte (questão cultural, lembra-te) te foi parar uma barata fresquinha à boca, se a tivesses comido não descobririas um novo e agradável sabor. Lembro-me de no ano passado, no Vietname, ver aquela gente comer coisas indescritíveis. E não acredito que a cor amarelada que têm seja por isso.

Insecto-moderado Fernando,
esses pequenos animais conseguem tornar a vida difícil a “gigantes” humanos como foi o teu caso. Mas tu, inteligentemente, tiveste a atitude mais sensata que foi  repartir o espaço que é de todos. Só que eles estão treinados para dominar e  pequenos, pequenos, lá vão levando a água ao seu moinho. Nunca tive muitas  histórias com insectos – de ratos ainda menos: o derradeiro que vi era enorme, cruzei-me com ele na rua e deu o último voo da vida dele proporcionado por um chuto enraivecido– mas um episódio nunca esquecerei. Até porque aquelas baratas, enormes e voadoras, incomodaram-me muito mais mortas do que se estivessem vivas.

Caro amigo

Disse-te que estou cansado de cartas que escorrem sangue e pedi-te para falarmos de passarinhos. Tu na resposta voltaste a deixar-me deprimido mas eu, espero, vou deixar-te mais bem disposto. Não te falarei de passarinhos mas sim de formigas, baratas, aranhas e ratos. Eu sei que não são passarinhos mas posso assegurar-te que pelo menos estas baratas voam.




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