Archive for Setembro, 2007

ABCDemocrata Fernando,
as agruras da natureza, muitas vezes, colocam em risco a nossa sobrevivência. Não chove, o milho não nasce, há falta de alimentação…Serão os ciclos naturais, será o aquecimento global provocado pela actividade humana? Muito provavelmente os dois. Mas quando são os que se julgam nesse direito a cavar a nossa sepultura, acabam-se as dúvidas e não há desculpa que justifique a bestialidade humana. Vem isto tudo a propósito de uma fotografia que correu mundo nos últimos dias e deve ter saído em centenas de primeiras páginas de jornais de todo o mundo. Mostra um soldado birmanês a abater friamente a tiro um repórter fotográfico japonês que registava a carga militar sobre os manifestantes em Rangum, a antiga capital daquele país asiático.

Mau ano agrícola

Caro amigo

O que eu temia aconteceu. Não choveu nalgumas ilhas e as culturas vão perder-se todas. Dias e dias de trabalho deitados não à terra mas por terra. Sementes que brotaram e que depois morreram à sede. Campos inteiros a ficarem outra vez castanhos, tão castanhos que já nenhuma água lhes vale. Espanta-me a indiferença das pessoas. É que já estão habituadas.

Diário DigitalIsolado Fernando,
só uma mente deturpada e maldosa poderia ver qualquer associação entre as  situações de estupro que me constaste na carta de ontem e a que te relato hoje. Pode haver alguém quase forçado ao que não queria, mas soube levantar-se a tempo. Venho contar-te o que foi um autêntico choque de titãs num canal de televisão português. Um ex-primeiro-ministro que precisa da imagem para respirar ficou indignado por lhe terem interrompido uma entrevista em directo para mostrar a chegada de um treinador de futebol, que se acha um “special one” e a quem circula televisão nas veias e muitos milhões nos bolsos. E como uma só televisão não dá para os dois, quem tinha que decidir optou pelas audiências…

Violados porquê?

Caro amigo

Comentava o Ricardo no outro dia, em tom de desafio, que eu ainda não tinha coragem de admitir que os cabo-verdianos não gostam dos portugueses. Gostaria por isso de te falar disso hoje, pedindo-te desde já desculpa pelas palavras que vou usar. É que há coisas que têm de ser ditas como as falamos, digamos, entre amigos. Dizer que alguém foi vítima de estupro pode ser politicamente correcto, mas entende-se melhor se disser que alguém foi enrabado. A palavra existe. Mas o sentido aqui é esse mesmo que estás a pensar.

DNVotante Fernando,
não estás a perder nenhum espectáculo de circo memorável, mas a “guerra” que os dois candidatos à liderança do PSD, o maior partido da oposição, decretaram por aqui invoca mais manuais de história medieval do que  regras democráticas do Século XXI. E tem umas belas palhaçadas.
Deixa-me dizer-te que acho fundamental o papel da oposição, seja qual for a sua cor política, mas não pode ser uma afronta de cabeça perdida, como aquela a que temos assistido no Parlamento.

Estás bom? Estás!

Caro amigo

No dia em que começou mais um ano lectivo em Cabo Verde a ministra da Educação esteve numa escola a distribuir, com a embaixadora de Portugal, material didáctico para as crianças. Durante os discursos da praxe olhei para aqueles miúdos, muito ordeiros ali em silêncio, e tive a certeza de que não estavam a entender coisa nenhuma. Se fosse na Universidade provavelmente acontecia o mesmo.

Afastado Fernando,

o nosso país anda em chamas, apesar dos poucos fogos florestais, daquelas que ninguém vê mas de que todos falam e abrem telejornais e enchem as primeiras páginas da imprensa. A razão de tudo? O futebol. A única “força” que move este  povo. Está na altura de uma nova carga da cavalaria fiscal, dirão os argutos funcionários governamentais que gerem a contabilidade da pátria. Depois do murro que o seleccionador português, Felipe Scolari, deu (ou falhou) num jogador  adversário de Portugal, o emigrante português mais famoso - o treinador José Mourinho – deixou a equipa inglesa do Chelsea. Qualquer tremor de terra, mesmo  pior que o de 1755 teria feito menos estragos no ego das lusas gentes.

Caro amigo

Já te falei da viagem de Edmundo Pedro a Cabo Verde, contei-te depois a visita ao Tarrafal, quero agora escrever-te sobre uma viagem que não chegou a ser, das “ovelhas negras” que há por toda a parte, de um puto ranhoso e do desespero de cinco homens, que tão fartos de tudo tanto se lhes faziam se corriam para a vida ou para a morte.

Cartoon BeiradoiroEmigrado Fernando,

vi há dias um relatório internacional que falava da imigração para Portugal e deixa-me dizer-te que esse povo com quem vives, e bem, não tem parado de deixar de aumentar na procura de um país alternativo para viver, principalmente se se chamar Portugal. É o único caso em que a origem dos imigrantes para aqui aumentou sempre, nas últimas décadas.

Caro amigo

Edmundo aponta a tenda. Na fotografia podem ver-se duas filas de tendas num descampado, ar inocente, até agradável. “A minha era esta”. Indica a segunda. O Tarrafal era assim em 1936, quando ele e outros antifascistas inauguraram o campo de concentração. Tinham sido feitos apenas os muros à volta, o interior, as casas onde viveriam e morreriam, seria tarefa dos próprios presos.




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