Archive for Agosto, 2007

 Folgazão Fernando,
sei que não tens tatuado no braço “Amor de Mãe” nem te conheço adepto dos novos métodos para homens e mulheres sós travarem relacionamento. Mas quero dar-te a conhecer o último grito na matéria, curiosamente vindo das entranhas do Portugal profundo, pois o método deverá dar muito que falar – e amar, espera-se. Um euro e um telemóvel e está feito: “Para o Natal vem aí outra”.

Caro amigo

“O que é que é preciso levar?”. Foi por certo esta a frase que mais disse, em Janeiro passado, quando me preparava para ir viver para Cabo Verde. E nem a repetida palavra “nada” me deixou descansado. Hoje, a poucos dias de terminar as férias é altura de te deixar alguns conselhos práticos sobre Cabo Verde. Para quando quiseres visitar as “minhas” ilhas.

Transparente Fernando,
afastado da realidade do teu país, apesar de estares de férias por cá, não quero deixar de te relatar um caso que vai dar que falar. Lembraste daquelas afirmações recorrentes de que somos um país de corruptos, que tudo começa em cima e tal e tal e tal…? Pois aí tens algo parecido com isso. Uma empresa de construção civil terá financiado um partido em 233 mil euros e, alegadamente, obtido dividendos por isso.
Contou o jornal Público que uma das maiores empresas de construção civil portuguesas, a Somague, pagou aquela verba gasta pelos sociais-democratas, então liderados por Durão Barroso, actual presidente da União Europeia, na campanha eleitoral para as eleições autárquicas de 2003.

Caro amigo
A propósito do curso sobre bem enterrar lembrei-me de um comentário que Ricardo Bordalo, jornalista grande conhecedor de África, especialmente da Guiné-Bissau e Cabo Verde, mas também um pouco de todo o mundo, fazia há tempos a uma carta que te enviei.
Eu falava dos emigrantes e ele contou-me a história de um, português, que conheceu há pouco tempo na Dinamarca. Retive que o homem, apesar de ser um sem abrigo, é lá que quer morrer. E pensei duas coisas: a primeira que era bom que todos nós pudéssemos escolher onde e como queremos morrer, e a segunda que deverias conhecer, se não conheces, o que ele escreveu. E então aqui vai:

Saudável Fernando,
estas questões dos direitos humanos e da justiça, principalmente quando se fala das crianças, são, sem dúvida, aliciantes e todo o esforço é pouco para melhorar o nível da civilização. É obrigação de todos avançarmos no campo dos valores, que obrigam naturalmente a alterar comportamentos, em nós, humanos, uma espécie tão conservadora como outra qualquer, mesmo irracional como são todas as outras. Ou parecem. E precisamos saber lidar com algo que é exclusivo nosso, enquanto desfecho inevitável da vida: a morte. E estamos muito mal preparados, pelas mais variadas razões, para lidar com ela. Mesmo os profissionais pagos para tratar de enterros e todos aqueles rituais que antecedem a descida à cova nem sempre se saem pelo melhor. Daí que tenha ficado a olhar para uma notícia de uma ideia, provavelmente muito oportuna, de criar uma escola para coveiros, em Elvas.

Caro amigo

Sou também dos que acreditam que a pequena Maddie está viva. Não tenho qualquer informação privilegiada nem me preocupei sequer em seguir o caso com muita atenção, mas a ideia de que alguém possa ter morto uma miúda assim pequenina é muito mais absurda do que a de que a possam ter raptado, sei lá com que objectivo. Não tenho é dúvidas de que vai aumentar os medos da sociedade e de que cada vez menos verás crianças a brincar, saudavelmente, na rua.

Informado Fernando,

há mais de três meses dirigi-te algumas reflexões sobre o desaparecimento da criança inglesa no Algarve. Mal sabíamos nós que agora, mais de 100 dias depois, tudo estava na mesma e sem fim à vista. Da menina nem rasto, a polícia dá a entender que quase nada sabe, a imprensa, principalmente a dita popular e particularmente a britânica, continua a acreditar que o futuro há-de ser o que eles quiserem e que conseguem fabricar a realidade. Triste exemplo para quem tem a responsabilidade tamanha de informar o povo de um dos países mais importantes do planeta… Esta é mesmo uma Terra de contrastes, Fernando…

Caro amigo

Já viste como é frequente ignorarmos as coisas importantes e concentrar-nos em pormenores efémeros? Com as pessoas é a mesma coisa. Um participante no Big Brother de repente é mais conhecido e acarinhado do que um grande escritor, ainda que seja analfabeto. E um actor de uma novela da hora de jantar, mesmo que saiba tanto representar como eu ou tu, torna-se mais importante do que um cientista, um investigador ou um grande repórter.

Sereno Fernando,
hoje escreve-te um amigo amargurado. Não meto as questões pessoais nas cartas que te dirijo, mas acho que as barracadas públicas devem ter destaque. Para que não se repitam, sonho eu. Passo a contar-te: fiquei possesso com a ignorância a que o Governo devotou os 100 anos do nascimento do escritor Miguel Torga. Sempre tão solícitos a inaugurarem uma estrada, um aqueduto, a apresentar um quadro numa escola com meninos contratados para aparecerem na televisão, e depois ignoram alguém muito superior a eles todos. Maus sentimentos.
Não houve um secretário de Estado para estar na cerimónia, qualquer um, nada, ninguém, ignorância ostensiva. Porque será? Preocupante, Fernando…

Caro amigo

A competição de hoje e a obrigação de sermos todos bem sucedidos é, para mim, coisa antiga. Os emigrantes portugueses poderiam ter vidas miseráveis em França ou no Luxemburgo, em Londres ou Amesterdão, mas quando vinham à terra tinham de mostrar os seus sucessos. Era assim há 40 anos e é hoje assim. Os brasileiros que vêm para Portugal também não podem, e friso, não podem, voltar a casa sem nada. Nem os cabo-verdianos, angolanos, argelinos, ucranianos, senegaleses, sejam lá de onde forem e para onde vão, admitem hoje ou admitiram ontem o opróbrio de emigrar pobre e voltar da mesma maneira. E se é preciso mentir-se, pois que se minta!




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