Archive for Julho, 2007



Caro amigo

Sabes que uma encomenda enviada de Lisboa para aqui demora quase um mês a chegar? E sabes que os correios de Cabo Verde têm a lata de te abrir o correio? E sabes que a alfandega, de forma prepotente e irracional, te quer obrigar a pagar mais do dobro do valor do que te foi enviado? É verdade! O único direito que tens aqui é o de recusar o que te enviaram.

Navegado Fernando,

imagino que tu por aí, como esse povo que é um bocadinho teu agora, ainda estejas à espera das trovoadas que trarão, não fartura, mas alguma água para alegria de todos e melhor sustento para muitos. E pensei nisso na pior altura: quando contemplava um rio. Daqueles a sério, sempre a mexer, silencioso mas vivo e raso de água, turvo mas rico e fértil.
A natureza nunca deixa de nos surpreender, como sabes. Basta parar um pouco o  olhar e quase sempre algo está a acontecer de enriquecedor à nossa frente sem que tenhamos qualquer intervenção. Os seres e os elementos, em que jamais reparamos quando andamos obcecados, se não mesmo angustiados, passam-nos ao lado. Ignorados, esquecidos, mas com tanto para nos mostrar.Pensava nisso de olhos pregados num rio pujante, uns cinquenta metros de água de largura, enrugado pelo vento mas silencioso.

Caro amigo

Uma das vantagens de se viver nas ilhas é que essas questões ficam mais longe. Aqui a imprensa, ou por opção ou por incapacidade, não dá grande destaque ao que se passa pelo mundo. Eu, limitado a ela, fico também um pouco, e se calhar ainda bem, limitado no meu direito e dever de me informar. Mas a impressão que tenho é que a pedofilia aqui não é preocupante. Agora devias ver outras coisas.

Expectante Fernando,

férias à porta, preocupações ao largo. Sei que pensas assim, e eu também. Só que o merecido descanso não pode significar deixar de pensar e de viver. Continuamos com os pés na terra e não se evaporam para o céu os problemas que nos atormentam no resto do ano. Quando eles voltam, lá estamos nós a remoer e a perguntar porquê. É o caso que não consegui evitar hoje quando devia sentar-me relaxadamente a dar asas à imaginação ou a relatar-te um belo dia de férias e eis que volta à actualidade o pesadelo dos padres, frades e outros responsáveis da hierarquia católica norte-americana que violaram centenas de crianças.

Caro amigo

Enquanto em Lisboa se vive a ressaca das eleições autárquicas, enquanto Paulo Portas se recolhe para pensar (não tinha já andado a pensar uns tempos?) e o PSD se começa a esgatanhar para ver quem vai substituir Marques Mendes, pelas ilhas não acontece nada comparado com tais importâncias. A não ser que 137 pessoas numa piroga, mortas de fome, sejam importantes para alguém. Duvido!

Recenseado Fernando,

acaba de se saber aqui quem vai ser o presidente da Câmara de Lisboa nos próximos dois anos e eu fui a correr saber números: votaram menos de 200 mil das 524 mil pessoas inscritas, o que dá uma abstenção a rondar os 60 por cento. Ganhou António Costa, o candidato do partido no Governo, mas muito seguramente o presidente de Lisboa eleito pelo menor número de votos de sempre. É a democracia a esvair-se pelos dedos.

Caro amigo

Por aqui as preocupações são muito mais, literalmente, terra a terra. Em Lisboa, hoje, escolhe-se o presidente da Câmara. E o país pára para ver se ganha o PS ou o PSD e logo à noite, por certo, os telejornais vão fazer grandes emissões em directo, como se Portugal inteiro estivesse preocupado com a autarquia lisboeta. Hoje, aqui, como ontem, é tempo de deitar o milho e o feijão à terra.

Eleitor Fernando,

escrevo-te na última noite da campanha eleitoral para a as eleições intercalares que se realizam domingo em Lisboa. Quero que saibas o que te espera nesta cidade e não sejam outros a dizer-te mais tarde. Vão ser umas meias-eleições, porque quem vencer só vai estar no poder, se se aguentar, meio mandato – dois anos. Tudo porque o anterior executivo caiu. Não será de excluir que esta ida às urnas fique também pela metade dos eleitores participantes. Em pleno início de férias, não excluo que as pessoas troquem a ida às urnas por qualquer passeio ou ida a banhos. Depois criticam, dizem cobras e lagartos de quem é eleito, mas esquecem-se que quando os chamaram…faltaram ao dever.

Caro amigo

Falei-te da cerimónia na igreja falta agora conheceres a festa. A casa pode ser pobre, erma, entre nuvens de pó e ondas de calor. Pode não ter electricidade nem água canalizada nem nada dessas modernices como frigorífico, televisão, ar condicionado ou fogão. A festa faz-se na rua e é de arromba.

Atento Fernando,
umas sopas de tomate não deixam de o ser se levarem peixe, ovo ou se forem “cegas”. É como um casamento: é quase igual em todo o lado, pelo menos se os noivos forem, alegadamente, católicos. A incompetência, o despotismo, são iguais em qualquer parte, tal como a integridade, o carácter, enfim, aquelas coisas de que costumamos falar. Daí que tratar a questão daí ou daqui, no campo dos princípios, é igual. Só difere pelos meios e pela suposta fiscalização e moralização dos costumes que imperam. Sem querer que me acuses de voltar a  “descascar”, como costumas dizer, quero que saibas de mais uma realidade (dura) que veio á tona de água aqui no teu país de marinheiros.




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