Archive for Junho, 2007



Ritmado Fernando,

fim-de-semana, verão à porta, férias a aproximarem-se, tendo a amenizar as “descascas” de que tu falas. E hoje achei que, e contribuindo para o teu repouso semanal, irias gostar de saber quem foi Ismael B., um tocador amador de tuba que já não se encontra entre nós e que conheci já lá vão uns valentes anos. Não era um músico genial da filarmónica, tocava a sua parte, como usa dizer-se, mas o que mais evidenciava nele era o relacionamento com aquele instrumento agigantado.

Caro amigo

Falaste-me dos que querem morrer e hoje vou falar-te dos que não querem. Lúcia Anjos não queria mas morreu ontem, quando dava a sua corridinha pela marginal da Cidade da Praia. Lúcia Anjos levou em cheio com uma chapa de metal que voou de um camião que ia a passar. Lúcia Anjos morreu instantaneamente. Não queria, não merecia, não podia.

Distante Fernando,

a vida confronta-nos com estes dilemas, que eu sei te surgirem como desafios para o pensamento e para pereceber onde nos leva a humanidade. O último, acho eu, é o daqueles mafiosos, traficantes, assassinos do pior recorte, condenados a prisão perpétua em Itália, que pedem para morrer. Querem ser mortos em vez de ficarem a vida toda privados de liberdade. Pena não terem pensado nisso antes de matarem e prejudicarem a sociedade da forma que o fizeram com base nos valores mais desdenhosos que se encontram por cima da crosta da terra. São 1.300 os autores de tal petição que  está a criar mais um debate num país democrático.

Caro amigo

É triste que pessoas andem dias para votar e outras que o podem fazer à porta de casa não se preocupem. Mas também é triste viver num país onde faz sempre calor, morar a dois minutos, a pé, da praia, e não puder ir molhar um pé que seja. É o que acontece na capital de Cabo Verde, nos dias que correm. Na capital, onde vive quase um terço da população deste país, deixaram poluir as praias de tal maneira que o melhor é esquecer o mar, aqui ao lado. O mar, ao que parece, só serve para “cagação”.

Votante Fernando,
os chineses por cá são comerciantes, nada mais do que isso. Nós até já sabemos andar, por isso eles deslocam as atenções para os menos crescidos. No que eles não nos podem ajudar é neste problema que a democracia nos trás: a abstenção, esse vírus que corrói os regimes democráticos, esse grupo gigante de pessoas que deixa aos outros as decisões que a eles lhe cabem. E depois surgem como os maiores críticos dos políticos que ignoram. Em vésperas de eleições aqui em Lisboa, onde a abstenção promete, com eleições a 15 de Julho e, dizem os analistas, um elevado número de eleitores a trocar um dia de praia pela decisão de quem vai governar a sua cidade nos próximos dois anos, encontrei no baú uma história exemplar sobre a importância de votar. Foi em Timor-Leste – onde “regresso” frequentemente, como reparas -  e contaram-ma pessoas analfabetas a quem jamais passou pela cabeça que ir dar uns mergulhos no mar e apanhar sol podia ser desculpa para deixar que outros decidissem o futuro por elas.

Caro amigo

Pois também temos por cá a nossa barragem, inaugurada no ano passado e hoje local de peregrinação dominical, com direito a cesta de merenda e se calhar até uma partidinha de futebol ao lado da bela construção. Eu próprio já aproveitei (e repara que digo aproveitei e não gastei) um destes domingos para ir ver a obra. Foi feita pela cooperação chinesa e não está mal. Uma barragem é uma barragem é uma barragem, diria Gertrude Stein. Agora devias ver o resto!

Sortudo e descansado Fernando,

festas, casamentos e baptizados. Pouco antes de pegar na caneta para te escrever mais estas singelas linhas, retive da realidade noticiosa esta espécie de anúncio ao ficar a saber onde já vai o aproveitamento da albufeira formada pela barragem de Alqueva, o tal maior lago artificial da Europa que prometia tirar o Alentejo do marasmo e garantir muita água aos sempre sedentos alentejanos. Afinal, ele é mais festas em barcos e menos agricultura. Como já havia quem previsse, nada do que se falava está a acontecer e, adivinha lá, a galinha dos ovos-de-oiro volta a ser o turismo. Eu diria antes que é apenas o primeiro “A”dos três que passaram a encher a boca de toda a gente.

Caro amigo

Deixa-me testar os teus conhecimentos! Sabes onde fica a Rua do Banco Nacional Ultramarino? E a Andrade Corvo, antigo ministro do ultramar? E a Serpa Pinto, antigo administrador colonial? E já agora a Rua Pedro Álvares Cabral? Deverás conhece-las todas aí em Lisboa. Mas também as tenho aqui, ao lado umas das outras, em pleno centro da capital de Cabo Verde.

Justo Fernando,
é bom ver um amigo assim repleto de felicidade com o bem que a Lourença e outras mulheres e homens deste mundo fazem todos os dias, em todas as latitudes e países, em prol dos outros sem exigir nada em troca. Mas eu sou dos que gostaria que eles dirigissem essa energia para outros projectos mais arrojados, porque isso significava que não havia meninos sem alguém para lhe aconchegar o lençol, contar uma história ou dar um beijo ao adormecer. E podia não haver, Fernando.

Caro amigo

Temos, nesta nossa troca de correspondência, “cascado” em Portugal e nos seus governos. Na generalidade das vezes concordo contigo, como quando ontem me falavas do encerramento das maternidades. Mas hoje vou dizer bem. Neste dia da criança não posso deixar de pensar no ar de felicidade de um adulto. Uma adulta, melhor dizendo. Lourença de seu nome. E as lágrimas que quase lhe escapavam em frente às câmaras de televisão por causa de Portugal.




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