Archive for Junho, 2007



Espantado Fernando,

um cão foi notícia aqui no fim-de-semana e eu, temendo que a proeza canina não tenha chegado às ilhas, achei que te devia contar o insólito. Não foi mordido por nenhum homem nem ferrou ninguém como outros fizeram. Este chegou aos jornais porque, aparentemente, confrontado entre o pastor e rabanho, optou pelas ovelhas, afinal o seu trabalho.

Caro amigo

Vi, ainda que pelo canto do olho, as comemorações do 10 de Junho, dia de Portugal, na RTP-África, as mesmas que tu terás visto e à mesma hora. Nesse dia creio que fui à praia, de tarde, e à noite meti a minha melhor gravata, o meu melhor fato, e estive na residência da embaixadora, numa recepção que esta ofereceu à comunidade portuguesa na Praia. Ambiente agradável mas vim embora cedo. Gravata é adereço que mal se aguenta aqui. E sabes porquê?

Correspondente Fernando,

a tua carta sobre as acácias que “dão” sacos de plástico fez-me recordar umas outras dessas árvores que vi no deserto marroquino há muitos anos, mas com uma pequena nuance: lá eram mesmo as acácias que aparentavam “dar” cabras, que as percorriam até ao mais fino dos ramos e se deliciavam com as suas folhas, presumo. Mas não são as artes de sobrevivência da natureza que me levaram a sentar para alinhar e dirigir-te mais mais estas linhas. O que me leva a escrever-te esta carta é…outra carta. Não uma missiva vulgar e particular, mas uma que o Presidente da República endereçou à RTP e fez (muita) questão que se soubesse.

Caro amigo

No dia em que estarás, assim o tempo o permita, repimpado a apanhar uns belos raios de sol pelas praias do sul de Portugal venho daqui, destas ilhas aparentemente pobres do Atlântico, contar-te um segredo. Descobri por cá de onde vêm os sacos de plástico. Se te disseram que são feitos de derivados do petróleo ou outra patacoada qualquer esquece. Eu vi onde eles nascem todos.

Descansado Fernando,

estive agora a fazer as contas e conclui que esta é a centésima carta que trocamos. Este fervor da escrita de contar de cá para lá, daí para aqui, não tem parado. É como o mundo e as mentes. Nem no sono se pára. E se tudo correr como espero e não houver chuva – contrariando as previsões dos especialistas – neste fim-de-semana “centenário” estarei a passear nesse areal que vês aí ao lado. Termina no mar, perto donde vi oceano pela primeira vez e onde volto sempre que posso.

Caro amigo

Falares da questão do aeroporto faz-me lembrar a companhia aérea de Cabo Verde. Sabes quanto custa uma viagem de ida e volta Cidade da Praia-Lisboa? Paguei por uma quase 800 euros. O mesmo que paguei no ano passado para, por exemplo, ir a Jacarta, também ida e volta. Mas não é só os TACV. Tenho de contar para pensares bem, no caso de te passarem pela cabeça uma férias aqui.

Votante Fernando,

venho confessar-te que estou desiludido com os candidatos à Câmara de Lisboa e a história, que tanto tem empolgado os debates e os ânimos, sobre a decisão de construir um novo aeroporto internacional na região. Já o disse em conversas de amigos, mas tu desconheces essa minha inquietação, presumo: nenhuma das pessoas que quer presidir aos destinos da capital portuguesa se mostra preocupado com perigo gigantesco que é ter o actual aeroporto quase no coração da cidade.

Caro amigo

“São milhares de jovens, sem qualquer especialização, sem família, sem certezas sobre o que os espera, sem segurança e que partem em frágeis embarcações, morrendo às centenas na viagem para a Europa”. Faz todo o sentido lembrar-te agora esta frase, já que me falaste também desta coisa dolorosa que é a imigração clandestina. Imigração já é uma palavra tão negativa que quando lhe juntas a outra, clandestina, dá-nos um nó no estômago. E sabes de quem é a frase?

Realista Fernando,

a tua última carta revela uma realidade bem dura vivida por milhões de pessoas há anos: o dilema de arriscarem a vida para terem uma existência menos má ou sobreviverem como podem, na mais elementar miséria, partindo por mar, a pé, até nos trens de aterragem de aviões. Também por isso nas cartas que dirijo achas que “descasco” em que tem o poder e decide aqui na Europa e no dito Ocidente, concretamente em Portugal. É disso que te falo, Fernando. Da má distribuição de riqueza. E do bolo, mal dividido. Se uns comem duas fatias, outros tantos nem o vêem. Como nas estatísticas do Salazar: cada português comia meio frango depois das contas, só que a realidade era que alguns comiam um pelgazão sózinhos eoutros nem lhe viam as penas.

Caro amigo

Imagina alguém que tem uma vida tão miserável, mas tão miserável, que morrer é uma opção e nem será a pior. Vi esta semana 41 pessoas assim. Fracas, cansadas, debilitadas e resignadas. Sem futuro mas também já sem preocupações por isso, entregues ao destino. O destino é a Europa. A Europa ou a morte.




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