Archive for Junho, 2007

Cúmplice Fernando,

 devo confessar-te que a história de Codé-Di-Dona me emocionou. Verdadeiramente. A parte negativa da sua vida sobrepôs-se à positiva. Acho que erradamente, mas os sentimentos são difíceis de controlar e eu deixo-os andar soltos muitas vezes. Como são os condimentos da vida, defendo que a nossa existência não deve ser sensaborona. Mais doce ou mais amargo, mas que tenha gosto.

Caro amigo

Falei-te de Codé-di-Dona e tu pediste-me que, quando o encontrasse, lhe contasse dos homens que tocam pedras. Poderei faze-lo. E tu diz a esses tocadores que quando lhes faltar o material que venham até Cabo Verde, onde pedras é o que não falta. Duvido que venham, como duvido que Codé se entusiasme com a ideia, agora que as cabras voltaram a ser os seus principais ouvintes.

Etnomusicólogo Fernando,

tu falas-me de gaitas e eu vou responder-te com saias. Gostei de saber mais sobre essa figura marcante da música tradicional cabo-verdiana chamado  Codé di Dona. É o retrato acabado de amor a uma arte que o artista nunca conseguirá explicar. É muito prazer, muita emoção, muita coisa boa misturada e isso não precisa, nem tem que ser explicado. Vais é conhecer nesta resposta exemplos parecidos, mas sem gaitas, apenas com pedras e a voz com que nasceram. Tive o prazer de ouvir e não me arrisco a descrever o que senti porque as palavras são curtas. Só te digo: enriqueci. Musicalmente e espiritualmente.

Caro amigo,

já falamos de chinelos e de botas, de cães e das cabras que comem os plásticos presos nas acácias. Hoje não te vou falar de férias no sul de Portugal ou de acampamentos selvagens mas partilhar contigo a história de um músico cabo-verdiano. Com uma gaita e uma cabra pelo meio!

Veraneante Fernando,

que fique claro que nunca me lembro de ter deixado as botas fora de casa, mas fora da tenda perdi-lhes a conta. Não tens o exclusivo. E se nunca me apareceu um escorpião, já um rato escapou ser esmagado porque conseguiu passar pela única fresta disponível e não ser espalmado por um pé 43. Mas também sucedeu o inverso. As botas resguardadas e eu ao relento. Essa não sei se te aconteceu….

Caro amigo

Viajar deve ser das melhores coisas do Mundo. Antes de termos ficado sedentários, há milhares de anos, fomos tanto tempo nómadas que viajar está nos nossos genes. Nos meus está. Por isso aproveito cada momento: a preparação, a viagem ela mesma e os estilhaços, quando regresso. Invariavelmente cada viagem minha começa no dia que dou graxa às botas.

Recordado Fernando,
hoje venho apelar à tua memória e tentar fazer-te recuar a uma viagem que realizámos, em grupo, já lá vão mais de dez anos, às geladas e elevadas terras transmontanas no pino do Inverno. Armei-me em herói, arrastei o grupo todo para uma tempestade medonha, atasquei o carro quando já havíamos perdido o Norte e o tempo alternava entre a chuva e a neve. Deves lembrar-te, seguramente. E também não te deve ter caído no esquecimento que no regresso à localidade mais próxima, a capital dos enchidos, Vinhais, fomos confrontados com um único local para pernoitar. Chamava-se Pensão Riberinha.

Caro amigo

Falaste-me de novas regras divulgadas pelo Vaticano e lembrei-me de te falar de outras regras aqui, ou falta delas. Sabes que passei quase toda a semana a tentar ir à ilha do Maio, que fica a uma hora de barco daqui, e não me foi possível? Há barcos que vão quando calha, há barcos que vão e não voltam e há barcos que anunciam que vão e depois afinal… não vão.

Acarinhado Fernando,

desconhecia a tua faceta de crente e de atribuíres a uma divindade ter-te surgido no caminho essa mulher fantástica chamada Arlinda. Mas até acho que tu mereces e estás à altura de retribuir o tratamento e o carinho que te aconchega e que, pode-se dizer, ela te dispensa. Agora se vês nisso uma “benção” e pretendes dar passos firmes no sentido da religião, e se for a católica, isso é uma opção pessoal. Mas prepara-te porque, para além da Bíblia e de uma carreira de encíclicas, vais ter agora, lançado mundialmente quarta-feira, um “manual” de conduta para andar na estrada. No mínimo, recomendo-te que passes a benzer-te quando entrares no carro. Dizem que nunca se sabe, e na dúvida…

Caro amigo

Deus anda a ler as nossas cartas. No mesmo dia em que me gabava de que em quase seis meses não tinha ainda ficado doente mandou-me uma diarreia fulminante, sem aviso, que me deixou tão cansado como se tivesse feito a meia maratona. E digo meia porque com a minha falta crónica de exercício não aguentava, por certo, uma maratona inteira. Mas, caro amigo, não o culpo. Antes de me enviar a doença já me tinha mandado um anjo.




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