Archive for Maio, 2007



Jornalista Fernando,

já deve andar pelas ondas daí também, mas não te chegará toda esta nuvem de fundo que inunda um país no final da Primavera. Desapareceu aquela criança  inglesa na Praia da Luz, Algarve e o país parece que parou. Não me vou perder em considerações, pois não sou crítico dos polícias que estão a fazer o seu trabalho, mas não posso de deixar de te manifestar, Fernando, tu aí em cima da pedra, atrás da duna, o folclore que os nossos camaradas jornalistas por aqui realizam. E digo portugueses e ingleses, na grande maioria.

Caro amigo

Pois aqui em Cabo Verde, honra lhe seja feita, há uma rede de autocarros urbanos e para a província que funciona satisfatoriamente. Ao contrário de Angola, Cabo Verde não tem petróleo, não tem diamantes, não tem madeiras preciosas, não tem, meu amigo, sequer água. Mas consegue dar um mínimo de dignidade aos seus habitantes, habituados não sei como a extrair alimento de uma terra que se calhar nem devia ser habitada. Mas se um dia descobrirem utilidade para tanto pó, tanto vento e tanta pedra… ahhh… os cabo-verdianos serão riquíssimos.

Automobilizado Fernando,
nem de propósito: a tua carta sobre esse grande homem maasai caiu-me quase na fraqueza, como se costuma dizer. Quando a li, tinha acabado de ver uma reportagem na RTP-África daquelas que quase nos tiram o sono. Um pesadelo que poderia ser completamente evitado. Centenas, talvez milhares de angolanos que têm que andar 24 quilómetros POR DIA A PÉ para irem trabalhar. Acredita, Fernando. Eles contaram e a reportagem mostrou. Num dos países do mundo que mais petróleo e diamantes produz. É verdade…

Caro amigo

Sei bem o que é isso dos apertos de mão propagandísticos que, imagino, há em todo o mundo. Porque um homem é bem educado já respondi a algumas mãos estendidas e sorrisos rasgados de pessoas que querem o meu voto e, porque um homem tem um trabalho que obriga a isso, já vi candidatos a dar beijos e abraços durante um dia inteiro. Um deles, não vou dizer o nome, coitado, apertou-me a mão meia dúzia de vezes ao longo de um dia. À noitinha disse-lhe e ele pediu-me desculpa. Que a confusão era muita e essas coisas! Todos sabemos como é, por isso queria hoje dizer-te que já há Internet em Cabo Verde e falar-te daquele que deve ser o jovem mais fascinante que já conheci na minha vida.

 Eleitor Fernando,

perdoa-me mas vou reincidir e voltar a falar de apertos de mão. Contei-te uma história edificante, do timorense, mas hoje ocorreu-me falar-te de uma outra menos digna mas também com significado, embora mais negativo. Uma bacalhauzada daquelas dadas sem qualquer convicção a alguém que nos aparece de braço estendido no meio da rua. Aconteceu com um político, um membro desse grupo de pessoas especialistas em oferecer cumprimentos e porta-chaves  e pedir votos  em troca.

Caro amigo

Queria começar por pedir-te encarecidamente: não me ponhas essa gente com bóias de cortiça entre as Berlengas e o Continente. Nunca se sabe se com as correntes não me vinham ainda aqui parar. E de amigos do ambiente daqueles que tens aí já Cabo Verde
está cheio. Ou seja, fazem discursos bonitos mas depois não movem um dedo, não tomam uma decisão, uma única que seja para proteger seja o que for. Lembras-te da história das tartarugas que vêm desovar aqui nas ilhas e que são mortas na praia pelo povo, ainda que as autoridades as protejam no papel? Pois é! Uma página oficial de promoção de Cabo Verde recomendava aos turistas que visitam a ilha da Boavista, até há poucos dias, que experimentassem a especialidade local, ovos de tartaruga. Preciso dizer mais?

Proprietário Fernando,

hoje ocorreu-me falar-te de um tema de economia, imagina! Eu nada dado a números, já te vejo de sorriso posto: o que virá aí? Vou-te contar uma ideia que me anda a atazanar há algum tempo. Porque carga de água é que nós não rentabilizamos melhor essa riqueza única e quase só nossa que é a cortiça? Continuamos agarrados áquela ideia de que se houvesse por aqui petróleo seríamos ricos e desprezamos por completo esse recurso de excepção, que além de não poluir, ajuda a combater a poluição, é renovável, pode aumentar ou diminuir consoante a nossa vontade e não tem adversários comerciais dignos desse nome e forma um coberto vegetal resistente aos incêndios.Nos próximos tempos vou dedicar-me a tentar perceber este mistério. Mas acho que me poderás ajudar a esclarecer tamanha dúvida, Fernando.

Caro amigo,

lembrei-me também de um aperto de mão estranho, o início daquela que iria ser a minha pior noite desde que estou em Cabo Verde. Resultado de preconceitos, talvez, inseguranças, bem provável, mas sobretudo de falta de atenção. Tudo junto deu essa noite mal passada e montes de dúvidas sobre se devia ou não estar ali, naquela terra estranha. Foi a única vez que as tive. E também a única que dormi mal.

Repórter Fernando,

acho que não tem nada a ver com a chuva que por aqui cai, devem ser mais as saudades que me fizeram recordar um momento vivido há uns sete anos em Timor. Nunca me tinha acontecido, nem deve voltar a repetir-se, espero eu, porque é uma situação quase indiscritível, apesar de aparentemente sem importância. Um homem a quem me dirigi, disse-me de lágrimas nos olhos: “Deixe-me cumprimentá-lo, que há 25 anos que não aperto a mão a um português”.

Caro amigo,

escrevo-te ao som da chuva lá fora neste dia do trabalhador. Não uma chuva copiosa, levada a vento, mas daquela que os meus pais chamam de “abençoada”, porque fica toda na terra. Deves saber, é uma espécie de “molha tolos” mas mais forte. Pingos grossos e persistentes que vão caindo devagar e lavando tudo. As árvores, vejo pela janela, parece que estão a gostar.E eu também! Que saudades de uma bela tarde de chuva.




PARCEIROS