Archive for Maio, 2007



Descansado Fernando,
quando te chegarem estas linhas, espero que estejas a recompor-te do folguedo e a fazer planos para os próximos. Faço vostos para que a poeira tenha assentando e a duna esteja muda e queda sem avançar. Nesse período de restabelecimento de forças, gostava de te contar uma história, das que nos varrem algumas dúvidas que possamos ter na mente, passada na Suécia, e outra nem tanto, que me ocorre aqui na rua de trás. Deixam claro fortes razões porque uns povos têm níveis de vida dignos e outros sobrevivem como podem.

Caro amigo,

como tu dizias e muito bem hoje é dia de folguedo. E por isso mesmo não te vou maçar muito. Quero apenas contar-te que este fim-de-semana, aqui na Praia, não se dorme. Pelo menos de noite! São mornas e coladeiras as noites inteiras, da praia da Praia para todas as ilhas. E quem vive perto ainda que queiria também não prega olho. Por isso, se não os podes vencer e não és surdo, junta-te a eles. Ic!

Poeiradas

Desempoeirado Fernando,
antes ser que parecer, diz o ditado. E eu acho mais natural essas nuvens de poeira que deixam douradas as ilhas aí do que as ondas de perfume que depois se vem a constatar serem um mau odor, uma promessa sem sustentação, uma palavra sem sombra de honra.
Tento compartilhar esse desconforto de ter pó a entrar por todo o lado, essa contradição entre o belo e o desesperante de ver o mundo num tom de ouro invulgar e depois sentir o corpo invadido por algo que não se vê e mal se sente: o pó do deserto do Sahara que a todos atormenta, que, carregado de electricidade estática, pára barcos e aviões, deixa um país em câmara lenta.

Caro amigo

Não sabia dessa história do Banco Ambrosiano e não sei, felizmente, uma do género para te contar. Vou explicar-te, em vez disso, porque é que andamos todos a passar aqui um mau bocado, nas ilhas de Cabo Verde. Não é fome, nem sede, não é uma onde assaltos, nem tampouco uma guerra ou uma crise política. É a bruma! Um fenómeno comum nesta altura do ano mas para o qual nunca estamos preparados.

Atento Fernando,
no dia em que te chegarem estas linhas cumprem-se precisamente 40 anos sobre um célebre assalto à delegação do Banco de Portugal na Figueira da Foz. Eram revolucionários que precisavam de dinheiro para acções contra a ditadura de Salazar e decidiram ir buscar o dinheiro onde ele estava. Ocorreu uma dificuldade acrescida. As notas roubadas eram novas e seria fácil detectá-las ao serem usadas. Sabes quem se ofereceu para as branquear, Fernando? Pois, o Banco Ambrosiano, do Vaticano.

Caro amigo,

pois daqui da ilha de Santiago digo-te que é o mesmo. Em muitas coisas Cabo Verde é como Portugal, já to tinha dito, e especialmente naquela técnica fantástica que nós temos de andar a “encanar a perna à rã” durante dias, semanas, meses ou anos e depois, de repente, quando os prazos apertam, dar-nos a fúria de trabalhar. Normalmente desenrascamo-nos. E não digas mal da palavra, até vem no dicionário e tudo!

Precavido Fernando,
essa expressão dos “jeitinhos e do desenrasca” da tua última carta sobre as desventuras de um consumidor em Cabo Verde reavivou-me a memória que nunca deixou de ser fresca sobre a matéria aqui em Portugal, também. Salvo o devido respeito, escrevo-te de um país que pertence há mais de 20 anos à União Europeia, que é só um dos dois blocos que contam quando de política falamos a nível planetário. E digam o que disserem, as regras da civilização foram escritas por aqui, na Europa, desde há muitos séculos. Estão cá os países mais avançados do mundo, aqueles onde as pessoas surgem primeiro que tudo, como não pode deixar de ser.

Caro amigo

Há uma outra guerra que envolve todos os dias os que prestam serviços e os consumidores. Os que nos querem comer por parvos e nós, os que às vezes somos parvos e outras temos de nos fazer. Aqui em Cabo Verde não temos, nós os parvos, o “exército” da ASAE para nos proteger. E bastante falta nos fazia. Para mim a ASAE é do melhor que temos em Portugal. Se cá estivesse evitava estas vontades súbitas que às vezes me dão de pegar numa matraca e partir tudo.

Divertido Fernando,
há muito tempo que não ria assim, tenho que te confessar. Não, não fui ao circo, nem ao teatro, nem sequer ao cinema, não assisti a malabarismos políticos delirantes, capazes de me dispõrem assim. Apenas comprei um jornal onde vinha um disco CD, onde, a abrir, adivinha, surge a “guerra” do Raúl Solnado. Humor a sério, inteligente, cheio de significado, pensado para novos e velhos, intelectuais e analfabetos, nobres e plebeus. E com uma actualidade de que eu não me apercebera, apesar de ter crescido a ouvir aquelas paródias, como tu, seguramente.

Caro amigo

vendo essas coisas por aí que bem me sinto aqui na minha duna, com ou sem cães. Não é que cá não aconteçam coisas terríveis, ainda ontem foram encontrados aqui numa praia perto dois corpos de dois bebés recém-nascidos, ainda há dias um soldado matou inadvertidamente a namorada. São notícias que se dão, claro, mas sem o folclore europeu. E ainda bem. Fosse aí e garanto-te que hoje seria o dia inteiro em directo da praia. Até os peixes entrevistavam.




PARCEIROS