Archive for Maio, 2007

Confessor Fernando,
ainda é um segredo mas vai deixar de o ser brevemente: Portugal vai bater mais um recorde e eu vou anunciar-te em primeira mão. Pensei sobre este bem guardado segredo, mas não resisti: é uma questão de dias e decidi antecipar-me e contar-te porque iremos andar nas bocas do mundo. O nosso país está no trampolim para dar o salto e ser a nação do mundo com mais nascimentos por quilómetro de estrada. Isso mesmo, Fernando. Duvido que noutras latitudes, onde existam estradas como cá, nasçam tantos bebés nas bermas.

Caro amigo

Já me tinham chegado aqui as palavras do ministro Mário Lino. Fiquei a saber porque é que Cabo Verde me é simpático: geograficamente e em termos de população é um deserto, como a margem sul de Portugal, a minha margem afectiva e familiar. Para Mário Lino Cabo Verde nem deve existir: são só 450 mil habitantes. Só faltam mesmo os camelos…

Pândego Fernando,

não resisto a contar-te a história da revelação do génio cómico de um ministro do Governo português: chama-se Mário Lino, tem uma das mais importantes pastas governamentais aqui, dizem que é unha com carne com o primeiro-ministro e há dias conseguiu abrir os telejornais todos quando discursou depois de um almoço para que foi convidado. Disse nada mais nada menos que a Margem sul do Tejo – que inclui só cidades como Almada, Seixal, Moita, Montijo, Barreiro, Alcochete, Palmela e Setúbal – é um deserto. Assim mesmo, Fernando!

Caro amigo

Por aqui também já se aproveitam os fins-de-semana para marcar pontos nas autárquicas de Cabo Verde que vão acontecer no próximo ano. Mas ainda é o tempo de passar um domingo na praia, dançar, jogar futebol e… claro… beber uns grogues e conversar. Benditos domingos sem campanhas eleitorais, ainda que estas também sejam um bom pretexto para dançar, beber uns grogues e conversar.

Decansado Fernando,

os tempos por aqui não vão muito de exaltar os sentidos, como os cheiros que sugeres. Mais os sentimentos. E nem ao fim-de-semana uma criatura se livra do que vai aqui nesta praça de hortaliça estragada. Directo ao assunto, acho que será útil conheceres o que se passa com as eleições antecipadas na cidade onde tens a tua casa. Temos uma câmara falida, uma dívida descomunal, uma capital paralisada e, senta-te para não caíres, 12 benevolentes cidadãos que se vão esfolar para ficar com a “menina” nos braços. Costuma-se dizer que quando a esmola é grande, o pobre desconfia. Mas se o que há para fazer em Lisboa nos próximos anos é equilibrar as contas, excluída que está a desejável descoberta de uma mina de ouro, então porque são tantos a querer gerir uma casa só para pagar dívidas?

Caro amigo

Partilho contigo esse gosto e digo-te que o posso partilhar daqui de África, porque faz parte da “ementa” de qualquer supermercado daqui. Ao contrário do que se diz por aí não são fardos de lagostas que encontras nas lojas não senhor. A alimentação é só um dos muitos mitos que se criaram sobre Cabo Verde. E digo-te caro amigo, Cabo Verde não é nada daquilo que se julga por aí.

Clarividente Fernando,

estou baralhado e venho por este meio pedir a tua ajuda. Nós, portugueses, fomos sobejamente acusados de estar a contribuir para a extinção de uma espécie de peixe que faz as delícias de quase todos. Nos meus mais íntimos momentos de reflexão preparei-me para nunca mais ver no prato uma daquelas deliciosas postas. Afinal, não é nada assim, Fernando. Há dias passou por aqui o primeiro-ministro norueguês e adivinha o que se reteve da visita: a promoção do dito bacalhau que nós ameaçamos severamente…

Caro amigo,

lembras-me com a tua carta outra grande mulher de Cabo Verde. Fugiu da miséria na serra da Malagueta, fugiu do regime colonial, fugiu da tirania portuguesa em S. Tomé e criou a primeira associação de mulheres do país. Foi homenageada duas vezes pelo Estado, é voluntária da Cruz Vermelha e participa num grupo de batuque que vai editar um CD. É cega desde a adolescência.

Descansado Fernando,
hoje achei que te devia  falar da nossa profissão de jornalista. Acho que é a melhor do mundo, mas isso sou eu. Mas não estou só. Aqui no quentinho, fiquei a saber que há quem publique um jornal numa árvore, Fernando! E ainda por cima no pior sítio do mundo para se viver neste momento: Darfur, Sudão. Venho propor-te uma homenagem a Awatef Ahmed Isaac, 24 anos, jornalista no inferno à face da terra.

Caro amigo

Porque a educação de cada um é o que é, e porque do que a casa gasta (Portugal) estamos nós fartos de saber, prefiro falar-te hoje de Malaquias Vaz. Tem 66 anos, casado, muitos filhos, alguns naturalmente emigrados, está prestes a reformar-se, vive na Cidade da Praia há 26 anos mas nasceu na ilha de São Nicolau. Uma vida normal, como milhares de cabo-verdianos. É verdade. Mas falo-te de Malaquias Vaz porque Malaquias Vaz deve ser um caso único. Não tem uma mas duas profissões em vias de extinção.




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