Archive for Abril, 2007



Caro amigo,

aquilo que começou por ser uma leve chatice, transformou-se num pesadelo. Se fosse uma doença de pele seria primeiro uma impressão, depois uma pequena comichão, evoluía para uma espécie de escaldão dos que apanhamos na praia, criaria ampolas e acabava num cancro. Há quase uma semana que em Cabo Verde só se consegue aceder à Internet por volta das quatro ou cinco da manhã, e mesmo assim mal e porcamente, que não se consegue enviar um fax para outro país e que chamadas telefónicas também só com muita sorte e persistência.

Letrado Fernando,

estive quase para te poupar a mais esta polémica que assentou arraiais por aqui, mas não resisti. Porque é demasiado importante e mesmo estando sem internet, não podes perder o que vai na praça com as habilitações do primeiro-ministro desta nação ou a forma como foram obtidas. Lembraste de te ter falado do país dos doutores e engenheiros? Bem, o tema navega nesses mares e há quem, erradamente, esteja a colocar o assunto nesse patamar.

Amigo António,

alguém ainda hoje, por esse país, poderá ter pesadelos com uma frigideira? Alguém poderá sentir suores frios quando ouve essa palavra? Ou sentir-se a sufocar? Um calor de mais de 50 graus e um ar quase irrespirável? Um chão de cimento, um púcaro de água salobra para beber, o cheiro horrível de fezes e urina a sair de um balde a um canto? 20 dias, 50 dias, 130 dias assim…

Isolado Fernando,

imagino-te aí desolado, com dificuldade em telefonar, sem conseguires reportar o que se passa nessa terra nem saberes o que acontece no mundo. Grave, muito grave. Mas serão falhas, incompetências acumuladas, desleixos. Imperdoáveis de facto, mas uma ninharia que a história não vai reter se comparados com o arrepiante comportamento do presidente do Banco Mundial, que aumentou escandalosamente uma funcionária por serem namorados. Se ele tivesse puxado de um charuto, estava lixado, Fernando! Assim não…Diz que não se demite!

Caro António,

um país sem fibra é um país isolado. Em Cabo Verde não há internet há 24 horas. Um problema num cabo de fibra óptica ao que dizem. A gente habitua-se a tanto isolamento? Não. Amanhã vou comprar pombos-correios.

Um abraço sem fibra

Fernando Peixeiro

Humano Fernando,

olhei para a correspondência que trocámos e conclui que nos últimos dias dominaram os animais. Cães à frente, bois logo a seguir. Proponho-me devolver um toque humano a estas prosas. E financeiro também, pena que não seja o anúncio de que me saiu o totoloto ou que tenha sido promovido.
Qualquer uma dessas improváveis situações é como uma gota de água perante o oceano que nos separa. O que me estimula a caneta hoje, Fernando, é a história de um rapaz de 22 anos, português, habilidoso quando pega numa bola, que vai ganhar, só em ordenado - excluindo “trocos” de contratos publicitários e outros biscates - 40 milhões de euros nos próximos quatro anos.

Amigo António,

dirás tu se esta minha carta de hoje tem alguma coisa a ver com os cães de que temos falado por estes dias. Não terá porque te quero recordar  um rapazinho de que já te falei aqui há tempos, o Zezinho, um miúdo pobre que sempre me pede algo para comer, de forma insistente às vezes, mas sempre educado.
O Zezinho aparece por aqui muitas vezes a tocar-me à campainha.

Cadela, SA

Afortunado Fernando,

essa cadela tem que se lhe diga e não deve ficar rubra por ver um porco a andar de triciclo, sequer. Desde que li a tua última carta que não parou a torrente de soluções que me ocorrem poder ser resolvidas por essa canina criatura. Tudo temperado com a atitude encantatória de um animal resolver adoptar um humano.

 

Amigo António,

 fiquei com alguma pena do boi que perdeu a luta e do quanto se deve ter sentido humilhado. Mas que me dizes tu de um cão que três patas que há dois dias adoptou a Isabel, uma amiga minha, quando passámos uma tarde na Cidade Velha? Julgas que se sentiu diminuído com o seu defeito físico quando a levou a visitar os edifícios históricos ou o que restam deles? Nada. Aguentou-se. E aguentou-se duplamente.

Caro Fernando, com os teus sapatos de vela,

ainda continuo calçado como tu, mas não é de sapatos que gostaria de te falar nesta minha carta. Tu tens-me contado sobre tartarugas, cães raivosos, mas a mim o mundo animal tem passado ao lado nesta correspondência. Até hoje, que me ocorreu uma viagem a Trás-os-Montes em que vi pela primeira vez, e única, uma chega de bois, que é uma luta sem grandes consequências para os animais – pelo menos a que presenciei – mas empolgante para as “claques”.




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