Archive for Abril, 2007
Caro amigo,
seria interessante responder-te agora com outro escritor daqui ou com um livro que tivesse lido há pouco tempo. Infelizmente, aqui, os livros que leio são os que trago de Portugal, porque na capital de Cabo Verde não há uma livraria digna desse nome. E não é porque esta gente não goste de ler. Quando falei com alguns amigos de cá e lhes disse que ia a Portugal todos me pediram para lhes trazer livros.Que livros? Perguntei. Livros, tanto faz.
Esperançado Fernando,
concordo em absoluto contigo que faltam no mundo muitos homens e mulheres como Baltazar Lopes. Livres. E não li o “Chiquinho”, não senhor. Só partes, em aulas de português, e recordo sem grandes pormenores. Mas aceito a tua recomendação e prometo que vou ler, se encontrar o livro à venda, o que não é fácil. Seria mais fácil se o autor fosse outro escritor que quero que fiques a conhecer. Um prodígio da produção literária que vem do Brasil. Um homem que escreveu 1.100 livros em 20 anos.
Faz-nos falta mais homens assim
0 comentários Publicado por Fernando Peixeiro 28 Abril 2007 em Cabo Verde.Caro amigo,
não conheci ainda nenhuma mulher que sobrevivesse graças a uma panela e desejo, na verdade, nunca vir a conhecer. Mas queria falar-te hoje, muito brevemente, de um homem que sobreviveu graças ao seu pensamento e atitude perante a vida e que é hoje das pessoas mais faladas e conhecidas em Cabo Verde. Chamou-se Baltasar Lopes da Silva e se fosse vivo tinha feito esta semana 100 anos.
Uma mulher e a sua panela
0 comentários Publicado por António Martins Neves 27 Abril 2007 em Portugal.Repórter Fernando,
a tua última carta mostra, de forma, clara, que vives uma realidade bem distinta da que deixaste aqui em Lisboa. Conhecerás e terás percebido já que as duas situações são bem diferenciadas, na maioria dos patamares. Embora aqui também exista muita gente a sobreviver no que os outros atiram fora. Pouco vi dessa realidade, mais comum em África, mas que nos deve envergonhar a todos. Tentei conhecê-la das formas possíveis, porque não a podemos ignorar e é preciso sabê-la para agirmos e debelá-la. Uma delas é pelos livros. E de um deles retive um relato que quase todos os dias me ocorre.
Quatro paredes e um cheirinho
0 comentários Publicado por Fernando Peixeiro 26 Abril 2007 em Cabo Verde.Caro amigo,
li na tua carta um certo desencanto. Dizes que não, que não és pessimista não senhor, mas imagino-te por aí, de sobrolho franzido, olhar sombrio e uma vontade de fazer como se faz aos computadores quando eles começam a dar problemas a mais: formatar esse país.
Por isso quero falar-te de três homens e de um cão que conheci aqui na Praia. Lá vem ele outra vez com os cães! O homem está fixado! Dirás tu. Não. Mas o bichinho existe e com muito melhor aspecto do que aqueles que montaram acampamento na duna da minha porta.
Uma democracia “enrascada”
1 comentário Publicado por António Martins Neves 25 Abril 2007 em Portugal.Atempado Fernando,
quando te chegarem estas linhas terão passado 33 anos sobre a revolução que pôs fim à ditadura aqui em Portugal e abriu o caminho à democracia. Não é uma questão de atrasos pontuais, de desleixo com os compromissos, mas é uma forma de avaliar o desenvolvimento de um país, o modo como os seus cidadãos encaram as obrigações a que se sujeitam naturalmente. Mas aqui, como aí, também não nadamos em nenhum mar de rosas. Foi mais cravos, mas nas espingardas. Bons momentos, fracos desenvolvimentos, Fernando.
Caro amigo,
compreendo essa tua indignação sobre os moços que andam aí nessas “modernices” do nacionalismo. Visto assim de longe a coisa parece-me menos surrealista e acabo a classificá-la como um “fait-diver”. É normal, a distância ajuda a amenizar as situações, os sentimentos. Se eu te disser que ando furioso com a falta de pontualidade dos cabo-verdianos também deves achar, abanando a cabeça complacente, que lá estou eu a preocupar-me com coisas pequenas.Bem… pequenas depende dos dias. Mas o mais pequeno é sempre meia horita. Desde que aqui cheguei, nem uma única vez, repito, nem uma única vez, alguma coisa começou a horas.
Tolerante Fernando,
na passada semana um partido que teve nove mil votos nas últimas eleições saltou para a ribalta aqui em Portugal. Dizem-se nacionalistas, mas o grande objectivo deles é mandar os imigrantes todos embora. Colocaram um cartaz no Marquês de Pombal a dizer isso. Como somos um país livre, nada a fazer, dirias tu com o teu modo tolerante. Só que eles escondem o bacalhau debaixo das sopas, como diz o ditado.
Naturalmente, o homem enfureceu-se
2 comentários Publicado por Fernando Peixeiro 22 Abril 2007 em Cabo Verde.Caro amigo
hoje não te vou falar de árvores nem de outros seres vivos aparentemente irracionais. Por aqui a Internet continua morta ou quase morta e tenho de aproveitar, por isso, os momentos em que respira para te falar de Laura Spernacci. Italiana, 57 anos, divertida, generosa e amiga. Morreu na semana passada, vítima de espancamento. Foi o homem com quem vivia, na Cidade Velha, quem a matou.
As árvores da minha vida
1 comentário Publicado por António Martins Neves 21 Abril 2007 em Portugal.Silvículo Fernando,
gosto muito de árvores, já deves ter percebido. Não é nenhuma paixão assolapada, mas não fico indiferente quando no meu caminho se cruza um belo exemplar de plátano, vejo uma majestosa azinheira no meio da planície, descubro uma nespereira carregada. Até mesmo uma daquelas oliveiras milenares me prende o olhar. Que queres? Temos os amores das nossas vidas, os locais, as praias, as férias, as viagens, porque não poderei ter as árvores da minha vida? E algumas aparentam alma até.
Se pensares bem, Fernando, dão-nos quase tudo e pedem-nos quase nada em troca, a grande maioria. Purificam-nos o ar para conseguir-mos continuar a viver, dão-nos frutos, sombra, abrigo, lenha e mais uma infinidade de coisas e só nos exigem que não as tratemos mal. O que, bem visto, não acontece. Pelo menos nos tempos que correm. Salvo num jardim ou noutro. Estão quase remetidas para um papel histórico, embora a maioria das pessoas desconheça que sem elas não podemos passar.


