Archive for Março, 2007



António,

Não me espanta essa facilidade de um norte-americano em aprender Português, ainda que com aulas por cima do muro. Espanta-me mais os imigrantes de leste que pululam por aí, que em poucos meses se fazem entender e entendem, ainda que por certo não tenham uma professora paredes-meias.
E espanta-me também a forma como aqui tratam o Português, quando a aprendizagem da língua, julgo eu, seria uma mais valia.

Compatriota Fernando,

Imagino que rumbas, sons e outros ritmos vão por aí, numa terra de música onde a primeira pessoa que se conhece é de outra pátria, cujo povo tem igualmente a musicalidade a correr-lhe nas veias…Admiro gente como Omar, que decidem mudar de país, desfrutar desse sentimento único de liberdade que é, para quem pode, viver onde nos apetece, quando nos apetece e como nos apetece.

A vida de Omar

Companheiro,

Não passei o domingo estiraçado, nem sequer ao sol, porque o vento levanta a areia miudinha e não dá grandes vontades de estender uma tolha à beira mar. Passei-o à sombra, à volta de uma mesa, a ouvir contar histórias de São Tomé, do Estado Novo, de Cabo Verde, de África.

Ilustre Fernando,

As sondagens, os estudos de opinião, aquelas artigalhadas e tudo o que nós dizemos, a toda a hora, sobre “os portugueses”, é uma coisa que chega a incomodar-me. Tu até conheces mais do que eu povos e países, culturas e modos de viver que te dão autoridade para comparar formas de estar na vida.

António,

Quando estava em Timor-Leste, em 1999, depois da destruição daquele país, era frequente ver os timorenses, sentados pelo chão, à beira-mar em frente ao Palácio do Governador. Nem um, nem dois, centenas, pura e simplesmente a ver passar os carros. Parecia até que todos estavam a fazer aquele jogo das matrículas, tão comum aqui há uns anos entre os mais novos, quando não havia nada para fazer.

Fernando,

A vida aqui pela Europa não é o que se pinta aí pelos trópicos. Há menos Zézinhos, não vão certamente tocar à mesma porta todos os dias, não conhecem o locatário pelo nome e muito menos atravessam a rua para o cumprimentar. Por cá é tudo mais frio, menos pessoal. As pessoas são menos gente. Disso não tenho dúvidas. Falo das cidades, para onde já fugiu a esmagadora maioria de nós.

Zézinho

Caro António

Acredito que se fosse pedido aos meninos de cá uma redacção muitos escolheriam a Europa como tema. Porque a Europa ainda representa, para muita desta gente, um futuro radioso. Estão enganados, como estão enganados os que pensam que Cabo Verde é um oásis e que é tudo maravilhoso aqui.

Camarada Fernando,

Um destes recentes dias ouvi uma história, inventada, mas que me deixou a pensar no mudar dos tempos que nos corre como o vento à frente do nariz. E confesso-te, aqui no desabafo destas sentidas palavras, que fiquei baralhado. O narrador tem nove anos e tudo se passou quando a professora lhe pediu uma redacção. Tema livre! E sem que eu entendesse porquê, veio África ao barulho. O rapaz nunca lá pôs os pés, garanto-te.

António, 

A tua história do francês e do guarda parecia quase ficção. Mas há filmes com finais bem menos felizes, envolvendo mulheres, homens, sentimentos de um lado, outros sentimentos, bem diferentes, do outro, e se calhar algumas histórias que ainda estarão por contar, talvez igualmente com um pacote de droga pelo meio.

Caro Fernando,

A história que me ocorreu hoje é das mais belas que ouvi, vão uns longos dez anos . É o exemplo acabado de que a imaginação não tem limites e que as melhores emoções são as de quem as sabe viver e construir. Conheci-a pela rádio, contada pelo nosso camarada Fernando Alves, o mestre da palavra dita.




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