Archive for Março, 2007

António,

falaste dos funerais e da morte, enfim amenizados com o teu inicial “vivíssimo Fernando” e lembrou-me outra coisa que eu acho também triste, aqui deste país dos ventos de leste. Os cabo-verdianos não gostam de árvores! Acho mesmo que eles odeiam árvores e sentem um impulso incontrolável para as cortar pela raiz mal elas entram naquela fase do arbusto.

Vivíssimo Fernando,

hoje apetece-me escrever-te uma carta sobre uma novidade daquelas que nos entram pelo dia-a-dia sem pedir licença e supostamente nos pretendem encher o coração de felicidade. Parece uma contradição, mas o que se segue é sobre a morte, o único destino que temos garantido. Mas fica sabendo, tu aí preocupado em desfrutar a vida o melhor que podes, que há quem se proponha facilitar-nos “as coisas” depois de morrermos.

Caro António,

compreendo a tua revolta e tristeza pela falta de memória que em Portugal parece haver. Mas também, visto à distância, me parece que não será caso para tanto. Que diabo! Não se tratou de um referendo, não foram os portugueses chamados às urnas para escolherem o eleito, não foi mesmo uma sondagem feita por uma empresa conceituada. E não se pode culpar dez milhões só porque um punhado de gente, por azar, tem telefone.

Caro Fernando,

brincavas há dias com o atónito António, mas é com esse sentimento que te escrevo hoje. Ou talvez perplexo. Ou mesmo indignado. Triste, desencantado. E, antes de saber a tua ou outra opinião, ninguém me tira que estou carregado de razão. Então não é que num concurso de televisão consideraram que o ditador Salazar é o “melhor português de sempre”??

Amigo António,

o tenho para ti uma história com um padre acelera ou sequer parecida. Ainda andei por aqui a procurar um padre motoqueiro para te fazer inveja, busquei um padre aviador, paraquedista, ciclista, em desespero de causa tentei ao menos um padre surfista, mas também nada.
Mas há uma história envolvendo um padre, que se passou aqui n
a semana passada, e que me deixou a pensar.Paul Pritchard. Foi este pastor evangélico de 37 anos que conseguiu essa proeza. Há duas semanas veio a Cabo Verde, onde passaria um mês em missão.

Prezado Fernando,

os assuntos da religião não costumam ocupar-me muito tempo, mas desta vez não consegui seguir em frente sem olhar pró lado, ignorando o que se passa à minha beira e que mete Papa (sim o do Vaticano!) e tudo!. E achei que ias gostar de conhecer a história de um padre “radical”, acelera e…irresponsável.
Por estes dias chegará à caixa de correio de Bento XVI uma carta invulgar. A uma organização portuguesa que se preocupa com o caos que impera nas nossas estradas – e mais ainda pelas suas consequências – achou que um padre a exercer em Santa Comba Dão, terra do Salazar, está a ultrapassar os limites do civismo e concluiu que o assunto devia ser do conhecimento do líder da Igreja Católica.

Companheiro,

 Grandes alegrias me dás por saber que Portugal continua a singrar e que a imaginação dos nossos governantes não tem limites. Só te peço que também não te espantes muito com essas coisas, para não ter, um dia destes, de começar uma carta com Atónito António. É que não soa bem.
E já que me falavas de coisas estranhas aqui que te deixo algumas, que me ocorrem assim de repente, desta terra que mesmo assim deve ser das mais bem comportadas de África.

Precavido Fernando,

sei-te um homem de parcos espantos, ainda não viste o porco a andar na bicicleta mas nem tudo já te faz pasmar. Cá por mim, acho sábia essa atitude e gostaria que perdurasse. Seria sinónimo de que continuas a bater-te tenazmente por aquela máxima de tentar perceber antes de botar faladura.
 Só que gostaria de te prevenir: quando vieres cá de férias, se o destino te encaminhar pela frente de alguma escola e vires muita gente lá dentro de fatos e vestidos, de branco e negro, copo na mão,uma bailação em grande, não te assustes, porque os nossos estabelecimentos de ensino ainda não foram definitivamente privatizados e sujeitos às regras do mercado livre.

Senhor Neves, como estás?

O começo desta carta também não é mero acaso. E devo desde já dar-te uma grande alegria, porque essas nos dias que correm são tão escassas que quando temos uma devemos logo partilhá-la.
Pois aqui de Cabo Verde confirmo. Portugal deve ser mesmo país de muitos doutores e engenheiros e pessoas assim importantes. Ou então Cabo Verde é tão pobre, tão pobre, que não pode ainda fazer o “upgrade” de cada cidadão.

Senhor Fernando,

O começo desta carta não é mero acaso. Foi-me sugerido depois de ler um texto que um jornal da província espanhola da Catalunha dedicado aos “país dos doutores e engenheiros”, obviamente o nosso.
Escreve a correspondente do El Periódico de Catalunya que quem chega a Portugal pela primeira vez depara-se com uma desproporcionada prevalência de doutores e engenheiros, pelo menos na aparência e se ficar de ouvido atento.




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