Folgado Fernando,

há um ditado que diz: quando estamos em maré de azar, até os cães nos mijam para as pernas. Sem dúvida que às vezes há quem deva ver o mundo a abrir-se-lhe debaixo dos pés sem  que consiga evitar a queda no abismo. E termina mesmo em tragédia, embora até na morte haja quem opte por não perder a dignidade nem desista de pensar nos que cá ficam. Venho hoje contar-te a história de uma família que ficou reduzida a uma criança de fraldas em pouco tempo  e do papel de uma nespereira na trama.
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Se calhar vou matar uma vaca

Caro amigo

Não tem sido fácil a minha vida, por aqui, neste último mês. Inundações, avarias, e depois mais inundações e avarias. A minha casa a meter água porque sim, dois computadores doidos porque sim, o carro e a máquina de filmar. Agora, para terminar em beleza, roubaram-nos mais um computador à hora de almoço. Levaram-no debaixo do braço, debaixo dos nossos narizes. Se calhar vou ter de matar uma vaca.
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Crime sem castigo

Afastado Fernando,

foi no momento em que levantei os olhos do artigo sobre a responsabilidade dos pais na educação dos filhos que vi o gesto fatal.
Tirou o último cigarro, amachucou o maço e pimba! atirou-o para a calçada da rua, junto ao passeio, no intervalo entre dois carros estacionados. Estudos e sondagens sobre civilidade pouco podem contra a dura realidade revelada nos pequenos gestos. Dizem-nos que já somos assim e assado, mas atiramos lixo para o chão com a naturalidade de quem respira. A teoria e a prática, a ficção e o real, o que parece e o que é, o que lemos e o que vemos, o que nos garantem e o que sentimos.
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Macabra

Caro amigo

Falei-te na última carta de vidas tristes e bairros igualmente tristes aqui de Maputo e venho hoje dar-te conta de mais algumas tristezas. A tristeza de dois rapazes, presos há dois meses, a tristeza de uma cabra violada, e a tristeza dos seus donos, que não sabem o que fazer com uma cabra violada.
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O novo bispo de Maliana

Memorado Fernando,

hoje acordei a ouvir a notícia de que Timor-Leste passou a ter um terceiro bispo, que terá a seu cargo a diocese de Maliana, na zona Ocidental do país, junto à fronteira  com a Indonésia. Quando ouvi o nome, recuei dez anos na memória e recordei-me que conhecera um padre chamado Norberto Amaral, em Maubisse, quando estive lá, antes da independência e depois da devastação indonésia causada por militares e  milicianos. Não me enganei. Foi o padre que entrevistei em Mauibisse – a “Sintra timorense” – na horta, de galochas, quando preparava a terra para semear batatas.

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Vidas tristes

Caro amigo

Tenho andado um pouco arredio, não que me tenha esquecido de te escrever mas porque o trabalho tem sido muito e ando há uns dias com uma dorzinha chata de estômago, que me tira a paciência para tudo. Nada comparado com as vidas de pessoas que conheço aqui, que recebem antiretrovirais de graça mas que não têm sequer um bocadinho de arroz para comer. São, caro amigo, as lutas diárias nos bairros de Maputo, onde não é fácil viver, tampouco sobreviver.
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Primavera

Tropical Fernando,

terminou hoje um dos invernos mais chuvosos de que há memória no país. Oficialmente, começou a primavera e o tempo confirma: está sol, céu limpo, 18 graus de temperatura. Se a natureza cumprir, o que já não é garantido, os cucos devem ter chegado hoje daí, de África, e já se devem fazer ouvir aqui, pelos bosques. A água dominou nos últimos três ou quatro meses, mas agora remeteu-se às evidências.

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“Porquê?porquê?porquê?”

Ele “noventa e…”, ela lá perto. Vão os dois ao ritmo que a idade permite, pelo passeio. Ela agarrada ao braço dele, como um casal “à antiga”. Nota-se que os corpos se deixaram vergar pelos anos, caminham tortinhos. Ela ligeiramente mais atrás, braço quase esticado para não deslocar do braço dele, toda discrição. As honras são mesmo para ele.

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Caro amigo

O Eugénio trabalha comigo. Ontem, disse-me, estava um pouco triste: tinha recebido um telefonema durante a tarde, uma sobrinha tinha morrido. “De cobra”. O curandeiro disse que ela morreu porque mataram a cobra depois de ela ter atacado a sobrinha, explicou ele. Não me disse quantos filhas tinha, só me disse “vai para lá uma carrada de órfãos”.
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Parti a caneta

Resistente Fernando,
parti a caneta. Isso mesmo: escapou-se-me das mãos e foi direitinha ao chão de mármore do pátio da entrada. O aparo abriu-se, arreganhado, e nunca mais foi capaz de deixar sair um gatafunho que fosse. Não foi coisa recente. Há já uns meses que deixei de tomar notas com aquela vulgar caneta. Continuo a registar no papel, mas não é a mesma coisa. O que me consola é que ela vai voltar a exercer. Com um aparo novo. Telefonaram-me há dias a dizer: “A sua caneta vai ser reparada. Está na Suíça…”.
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