Caro amigo

Li num livro, quando era pequeno, que os lêmingues se suicidam atirando-se de penhascos, ao que me lembro um ritual de sobrevivência da espécie. Guardei essa ideia durante anos, a dos pequenos animais precipício abaixo para que as novas gerações pudessem viver. Mais tarde vim a saber que afinal não era bem assim, que não se suicidam, e confesso-te que até perderam para mim uma certa magia. Voltei a lembrar-me deles aqui. Os moçambicanos fazem-me lembrar a história, a antiga, dos lêmingues. Só que sem magia.

portoViajado Fernando,
fui ao Porto! À Invicta, isso mesmo. E nada de trabalho: foi mesmo passeio e contemplação puros. Num domingo encalorado, o Sol estava escaldante, como se pairasse ali logo por cima da Rotunda da Boavista.

Forbidden

forbidden

Caro amigo,
a coisa começou por ser de vez em quando mas agora piorou. Quanto tento entrar na nossa página de correspondência a Internet não me deixa.

Caro amigo

Sabias tu que, no futuro, a linha de costa em Moçambique pode recuar até 500 metros? E que a barragem de Cahora Bassa pode ficar sem água suficiente para produzir energia? Que os portos da Beira e de Quelimane podem estar em risco? Que a baixa de Maputo pode desaparecer? São previsões catastróficas, parecem, mas quem entende disso garante que são antes realistas.

TERRA

Consciente Fernando,
confesso que me propunha vir aqui falar de algo que achava importante desabafar contigo. Distraído, e mais desatento do que devia, andava ali a saltitar de canal em canal na televisão quando dei de caras com o documentário que faço questão que vejas. Em vez de todas as palavras e de todas as cartas, ignorando que amanhã, domingo, vou convictamente votar (espero que já o tenhas feito…), ainda mais importante é o que este doumentário vem repetir. Se nos resta algum laivo de inteligência, se persiste algo mais importante na nossa consciência do que o dinheiro e  se queremos que os nossos filhos sobrevivam, assentemos de vez os pés nesta Terra.

Um preocupado abraço.

António Martins Neves

Caro amigo

Tinha pensado hoje falar-te de alterações climáticas e desastres naturais em Moçambique mas uma mãozinha meteu-se pelo caminho. Um não. Três mãozinhas, pequeninas, ávidas de calor, de um carinho, de um sorriso que fosse. De um abraço que não acabasse nunca. Emocionei-me. Acho que a Francisca Paulo percebeu.

Arena

Cinéfilo Fernando,

o início de uma campanha eleitoral que vai durar quase cinco meses ofuscou um facto que nos deve orgulhar bem mais do que as prestações de quem foi para a rua pedir que nos lembremos deles nas urnas de voto, que eles prometem esquecer-se de nós nos quatros anos que se seguem. Pela primeira vez, um filme português ganhou um primeiro prémio (Palma de Ouro) do Festival de Cannes. Certo que é uma curta-metragem de 15 minutos, mas como os filmes não se medem aos palmos e os prémios também não, fiquei orgulhoso. Mais ainda por “Arena” ter sido a estreia profissional de um realizador de 26 anos, chamado João Salaviza. Já vi e gostei.

Caro amigo

Akil Askarhodjaev é professor de física nuclear e física atómica. Dá aulas aqui em Maputo na Universidade Eduardo Mondlane. É um tipo de olhar vivo, cabelos brancos, um pouco atarracado de corpo, simpático e uma pronúncia engraçada. É uzbeque e faz quadros de pedras preciosas. Achei interessante e hoje falo-te dele.

Tradicional Fernando,
sabes que casas de palha, como já deves ter visto muitas aí, podem ser as habitações do futuro? Feitas de modo diferente, é claro, mas casas como há cá, vivendas mesmo, feitas com fardos de palha, com maior conforto que as construídas em tijolo e muito mais baratas? É verdade. Há algum tempo fui descobrir essa técnica que está a agora a tentar dar os primeiros passo cá, mas que já é usada há muito nos Estados Unidos e até aí na tua vizinha África do Sul, onde um dos mais luxuosos hotéis do país foi erguido com 10 mil fardos do natural e renovável material.

Momentos

Caro amigo

Às vezes sinto que a minha vida se faz à volta da Julius Nyerere, 24 de Julho, Ho Chi Min e bairro Sommerchield. Tudo se passa aqui. A casa, o trabalho, jantares ou almoços, acácias a perder as flores, o vento a soprar milhares de pétalas amarelas, como se estivéssemos permanentemente a sair da Igreja num dia de casamento. Apeteceu-me hoje falar-te de alguns momentos de Maputo. Meus. Se não quiseres ler nem abras o resto. Um abraço.




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