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Atlântico expresso


Observador Fernando,
ontem houve pancadaria aqui em Lisboa. No final de uma manifestação em frente à Assembleia da República, integrada na jornada de greve convocada pela central sindical CGTP, a polícia carregou sobre uns milhares de pessoas que se concentravam na meia-lua contígua às escadarias do Parlamento. Gerou-se um movimento de indignação generalizado, muitos a defenderem a atitude da polícia, outros tantos a acusarem as forças de segurança de terem ido além do que delas se espera, espancando manifestantes só por estarem ali.
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Nota de protesto

 

Reclamante Fernando,

lembraste daqueles automobilistas que decidiram, há uns anos, protestar contra o preço das portagens na Ponte 25 de Abril, aqui em Lisboa, pagando a passagem com moedas de tostões, quando ainda não havia o euro? Assisti a um gesto de revolta do mesmo calibre, mas ao contrário: pagar com a nota maior para dificultar o troco.

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A Praça

Caro amigo
Quase três semanas depois do golpe de Estado a Guiné-Bissau não vê resultados. É em Bissau que tudo se discute, que tudo se decide, que se fazem os golpes e de desfazem, que se contam mentiras e meias verdades, que se mata enfim. Chama-se aqui “a Praça”. A zona comercial e de escritórios, dos serviços e de alguns ministérios, do forte de Amura onde estão os militares, do porto, correios, imprensa, bares e restaurantes. Mas a Guiné, caro amigo, não é a Praça. E isto a gente da Praça ainda não entendeu.
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Mas qual cultura?

Caro amigo
Ontem 06 de fevereiro, deverás ter dado por isso, assinalou-se o Dia Mundial de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina. Aqui na Guiné-Bissau quase metade das meninas entre os sete e os doze anos sofreram alguma forma de amputação do clitóris ou dos lábios vaginais. Poupo-te aos pormenores de uma prática que é proibida desde o ano passado. Mas que se faz em nome da cultura e da tradição.
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Senhor Presidente

Caro amigo

Escrevo-te num dia importante para a Guiné-Bissau. Importante mas não bom. Porque este foi o dia em que foi a enterrar o Presidente de um país onde há três semanas se viveu mais uma tentativa de golpe de Estado. De um país que terá este ano duas eleições pelo menos e que não tem dinheiro. De um país órfão, com demasiados candidatos a padrastos. De um país que acorda amanhã sentindo que cumpriu o seu dever para com o Presidente mas que sente também demasiadas incertezas para o futuro. Continue reading ‘Senhor Presidente’

Resgatei uma galinha

Bem entrado Fernando,

naquela semana que costuma passar a correr entre o Natal e o Ano Novo, quando já se foi a quase obrigação das prendas e o que sobrou vai ser gasto nos votos de um ano o menos mau possível, dei comigo, num gesto raro, a olhar para uma montra de decorações e outras inutilidades mais ou menos indispensáveis. Por acaso, porque calhou, algo me chamou a atenção, não me recordo o quê, e dei de caras com esse galináceo que podes observar aí ao lado. Travou-me o olhar, o animal. Entrei, confirmei com a senhora atrás do balcão: “Uma cabaça…”. Era e veio comigo, está aqui em casa.

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Sobreiro é a árvore nacional!

 

Admirado Fernando,

 tenho lido atenciosamente o que me contas, mas nada do que tenho assistido por aqui me encorajava a devolver-te a escrita. O caos, a definhação, a incerteza, um quase não país, o descalabro. Disso tens tu nota aí pelos trópicos, basta o que basta.Eis senão quando, e curiosamente aprovado por unanimidade na Assembleia da República, surge uma decisão sem grandes efeitos práticos, mas emblemática para um país à deriva: classificar o sobreiro como a árvore nacional.

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Caro amigo
Estive caladinho às voltas com umas dores numa perna e depois num braço, que já vão passando. Surgiram depois de uma viagem de três dias a Bubaque, uma ilha aqui do arquipélago os Bijagós, na Guiné-Bissau. Mas não é delas nem dela de que te vou falar hoje. Nem sequer do país. Esta carta é sobre pessoas.
Continue reading ‘E nem me deu tempo para lhe dizer obrigado.’

Isso é coisa de mulher!

Caro amigo
No mês passado, quando regressava a Bissau, vindo de Cabo Verde, viajei com o Januário, um jovem guineense. Disse-me que tinha ido a Cabo Verde visitar um amigo mas já quase em Bissau confessou que nem tinha visto o amigo porque nem saiu do aeroporto, onde esteve retido três dias antes de ser recambiado para a origem. Estive com ele aqui em Bissau algumas vezes e o seu sonho não será diferente de muito boa gente aqui.
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Haja saudinha

Caro amigo

Isto depende de cada um mas eu até já estou habituado a que elas desçam devagar pelas minhas costas, ou pelo meu peito, sorrateiras por ali abaixo até à cintura. Às vezes finjo que não é nada comigo mas sinto-as molhadas a escorregar cada milímetro, sinto quando param, quando como que desaparecem e depois reaparecem mais abaixo. Mas não consigo habituar-me quando aparecem a deslizar pelo resto do corpo. Confesso que fico incomodado.

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