Caro amigo
Escrevo-te num dia importante para a Guiné-Bissau. Importante mas não bom. Porque este foi o dia em que foi a enterrar o Presidente de um país onde há três semanas se viveu mais uma tentativa de golpe de Estado. De um país que terá este ano duas eleições pelo menos e que não tem dinheiro. De um país órfão, com demasiados candidatos a padrastos. De um país que acorda amanhã sentindo que cumpriu o seu dever para com o Presidente mas que sente também demasiadas incertezas para o futuro. Continue reading ‘Senhor Presidente’
Bem entrado Fernando,
naquela semana que costuma passar a correr entre o Natal e o Ano Novo, quando já se foi a quase obrigação das prendas e o que sobrou vai ser gasto nos votos de um ano o menos mau possível, dei comigo, num gesto raro, a olhar para uma montra de decorações e outras inutilidades mais ou menos indispensáveis. Por acaso, porque calhou, algo me chamou a atenção, não me recordo o quê, e dei de caras com esse galináceo que podes observar aí ao lado. Travou-me o olhar, o animal. Entrei, confirmei com a senhora atrás do balcão: “Uma cabaça…”. Era e veio comigo, está aqui em casa.
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Sobreiro é a árvore nacional!
fechado Publicado por António Martins Neves 24 Dezembro 2011 em Portugal.
tenho lido atenciosamente o que me contas, mas nada do que tenho assistido por aqui me encorajava a devolver-te a escrita. O caos, a definhação, a incerteza, um quase não país, o descalabro. Disso tens tu nota aí pelos trópicos, basta o que basta.Eis senão quando, e curiosamente aprovado por unanimidade na Assembleia da República, surge uma decisão sem grandes efeitos práticos, mas emblemática para um país à deriva: classificar o sobreiro como a árvore nacional.
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E nem me deu tempo para lhe dizer obrigado.
fechado Publicado por Fernando Peixeiro 24 Outubro 2011 em Guiné-Bissau.Caro amigo
Estive caladinho às voltas com umas dores numa perna e depois num braço, que já vão passando. Surgiram depois de uma viagem de três dias a Bubaque, uma ilha aqui do arquipélago os Bijagós, na Guiné-Bissau. Mas não é delas nem dela de que te vou falar hoje. Nem sequer do país. Esta carta é sobre pessoas.
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Caro amigo
No mês passado, quando regressava a Bissau, vindo de Cabo Verde, viajei com o Januário, um jovem guineense. Disse-me que tinha ido a Cabo Verde visitar um amigo mas já quase em Bissau confessou que nem tinha visto o amigo porque nem saiu do aeroporto, onde esteve retido três dias antes de ser recambiado para a origem. Estive com ele aqui em Bissau algumas vezes e o seu sonho não será diferente de muito boa gente aqui.
Continue reading ‘Isso é coisa de mulher!’
Caro amigo
Isto depende de cada um mas eu até já estou habituado a que elas desçam devagar pelas minhas costas, ou pelo meu peito, sorrateiras por ali abaixo até à cintura. Às vezes finjo que não é nada comigo mas sinto-as molhadas a escorregar cada milímetro, sinto quando param, quando como que desaparecem e depois reaparecem mais abaixo. Mas não consigo habituar-me quando aparecem a deslizar pelo resto do corpo. Confesso que fico incomodado.
Continue reading ‘Haja saudinha’
Imparável Fernando,
tu preocupado em não deixar escapar nada do que o mundo te estende e eu a tropeçar no que se quer esconder. O bom é isto: caldearmos tudo aqui. Cada um viaja como pode e quer. Nunca ouvi falar no limite da alma e não creio que exista. Nem a realidade é confrangedora como a fazem. Olha ao que assisti há dias: a globalização repetida, como começou já há 500 anos. Só que agora ao contrário.
Continue reading ‘Morena no montado’
Caro amigo
Passados mais de dois anos estou de volta ao Atlântico. Recomeço hoje a nossa correspondência a partir de Bissau, embora com uma passagem pela Praia por estes dias. O que é bom, se mais não fosse para fugir deste calorzinho que me deixa praticamente em estado catatónico.
Continue reading ‘De volta ao Atlântico’
escrevo-te neste dia 25 de Abril de 2011, quando o verão parece estar a entrar, mas o inverno teima em apoderar-se das nossas almas, depois de já nos dominar tudo o resto, carteira incluída. Esperança, sonho, mais esperança e todos os sonhos do mundo enchem os discursos de quem se sente obrigado a justificar-se perante o esta- do a que “isto” chegou. Há 37 anos que é assim e tu ou eu podemos testemunhá-lo, para além de mais uns milhões largos de espetadores do que tem sido este espetáculo de gerir a dívida em vez de governar o país.
Continue reading ‘Num tempestuoso dia de sol’
também já ouviste dizer que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo, que as aparências iludem, olhem para o que ele faz e não para o que diz e outros ditados, lugares comuns e afins. Fiquei ainda mais crente na sabedoria popular quando há dias conheci pela televisão e depois pelos jornais uma história de um cavalheio “bem posto na vida”, como se dizia, que tem originado centenas de notícias nos anos recentes por ver o seu nome associado a situações entregues à justiça por suscitarem dúvidas que têm a ver com corrupção e crimes afins. Um ex-ministro de quem o atual chefe do governo anunciou ser amigo pessoal. O homem confirmou o que já se sabia há muitos anos: que é um tipo desenrascado, para me socorrer de um adjectivo cheio de atualidade. O verdadeiro significado do comportamento fala por si e tu concluirás do calibre do indivíduo, para usar também um substantivo muito em voga nos noticiários.
Continue reading ‘Um tipo desenrascado’






