“Porquê?porquê?porquê?”
0 comentários Publicado por António Martins Neves 15 Março 2010 em Portugal.
Ele “noventa e…”, ela lá perto. Vão os dois ao ritmo que a idade permite, pelo passeio. Ela agarrada ao braço dele, como um casal “à antiga”. Nota-se que os corpos se deixaram vergar pelos anos, caminham tortinhos. Ela ligeiramente mais atrás, braço quase esticado para não deslocar do braço dele, toda discrição. As honras são mesmo para ele.
A sobrinha do Eugénio e o casamento de Lizha James
fechado Publicado por Fernando Peixeiro 1 Março 2010 em Moçambique.Caro amigo
O Eugénio trabalha comigo. Ontem, disse-me, estava um pouco triste: tinha recebido um telefonema durante a tarde, uma sobrinha tinha morrido. “De cobra”. O curandeiro disse que ela morreu porque mataram a cobra depois de ela ter atacado a sobrinha, explicou ele. Não me disse quantos filhas tinha, só me disse “vai para lá uma carrada de órfãos”.
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Resistente Fernando,
parti a caneta. Isso mesmo: escapou-se-me das mãos e foi direitinha ao chão de mármore do pátio da entrada. O aparo abriu-se, arreganhado, e nunca mais foi capaz de deixar sair um gatafunho que fosse. Não foi coisa recente. Há já uns meses que deixei de tomar notas com aquela vulgar caneta. Continuo a registar no papel, mas não é a mesma coisa. O que me consola é que ela vai voltar a exercer. Com um aparo novo. Telefonaram-me há dias a dizer: “A sua caneta vai ser reparada. Está na Suíça…”.
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Seja lá o que for é bom
1 comentário Publicado por Fernando Peixeiro 7 Fevereiro 2010 em Moçambique.Caro amigo
Duas semanas em três cidades tipicamente europeias e aqui estou eu de novo em Maputo, a “minha África”, a minha casa. Não te vou falar da África do Sul, de como os campos são bonitos e bem tratados, das paisagens maravilhosas, dos parques, da vida selvagem. Nem sequer da simpatia do povo, que a tem, ou da insegurança de Joanesburgo, que também a tem. Fixo-me no João, engenheiro, trabalha em Pretória.
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Caro amigo
É quase meia-noite em Pretória. Uma noite fresca e sem chuva, como foi o dia de hoje em Joanesburgo. Estou há quase uma semana pelas terras do Rand e escrevo-te em formato bilhete-postal, que a esta hora estou cansado e amanhã é mais um dia cheio de trabalho.
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Caro amigo
Imagino-te aí saturado de tanta água, como eu quando aí estive, mas ao escrever-te é o calor que me aflige mas também a falta dela. O Verão está ao rubro em Maputo e a cidade continua bonita, agora já de acácias vermelhas e amarelas, às vezes colorindo só os passeios, outras as bancas de vendedores ou quem dorme à sua sombra, coisa normal nas ruas desta cidade. E no entanto tenho já saudades de Lisboa.
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E tu? Davas-lhe o tal abraço?
1 comentário Publicado por Fernando Peixeiro 17 Dezembro 2009 em Moçambique.Caro amigo
Falei-te de uma mulher na minha última carta, não resisto hoje a falar-te de outra. Tal como a Suzana Custódio é, deve ser, tem de ser, uma força da natureza. Ao contrário da Suzana não passei com ela uma manhã mas apenas 10 minutos de uma manhã. E não me falou de quantas vezes chorou. Mas devem ter sido muitas, imensas.
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Caro amigo
Quem vê Susana Custódio dificilmente a imagina a chorar. É alta, forte, uma torre de mulher e um sorriso permanente na cara grande. Ar decidido, voz ainda mais e nós a sentir que ao pé dela estamos protegidos dos males do mundo. Susana Custódio criou uma aldeia. É uma força da natureza.
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Caro amigo
Quando tu viste aí em Lisboa os apoiantes de Isaltino Morais e Marcos Perestrelo pegarem-se de razões deves ter corado um bocadinho. De vergonha. Eu acho que corei, e estou a 10 mil quilómetros. Pois bem, para que não te falte nada aqui fica mais uma carta de consolo.
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História do homem que anda
3 comentários Publicado por António Martins Neves 30 Setembro 2009 em Portugal.Perspicaz Fernando,
em momentos como o actual, entram-nos todos os dias pela casa dentro caras e vozes a tentar-nos convencer que são de uns predestinados capazes de nos salvar do apocalipse. É quase sempre assim antes de eleições. Um desfile de líderes políticos a suarem por nos fazer crer que o nosso bem estar é a sua maior preocupação, que se lhe dermos o voto, é desta que o país irá onde nunca foi. O costume há mais de 30 anos. Nada habitual é alguém comportar-se como tendo uma missão a cumprir sem dar por isso, justificá-la numa frase com meia-dúzia de palavras e ninguém encontrar a mais remota explicação para um comportamento só registado pelos mais atentos.


