Atarefado Fernando,
com esse corre-corre a que te obrigam as eleições por aí, ainda vais ser apanhado em excesso de velocidade nalguma curva. Não te preocupes! Como por cá agora pode-se alegar o desconhecimento da lei quando se comete uma infracção e pedir desculpa depois para sermos ilibados, podes tentar a estratégia e ver pega. Se aqui o primeiro-ministro o faz, não vejo razão para que nos outros regimes democráticos seja diferente, não te parece? É uma espécie de jurisprudência baseada na superior conveniência do indivíduo…
Caro amigo
Não é que esteja chateado, nem triste, nem sequer bêbado. Também não me vou levantar às quatro da manhã. É só uma questão de clima mesmo. Hoje estou cansado e vou direitinho dormir. Tive um dia movimentado, por aí à procura dos candidatos a autarca, que pode parecer estranho mas são difíceis de encontrar. São como os polícias. Quando queremos um não o encontramos, quando não precisamos tropeçamos neles.
Jornalismo, suor e lágrimas
3 comentários Publicado por António Martins Neves 13 Maio 2008 em Portugal.
Repórter Fernando,
eis-me regressado mas sem vontade de me levantar às quatro da madrugada e muito menos de corridas matinais, como sugeres. Aceito e cumpro o conselho do banho, mas em circunstâncias bem diferentes e mais exigentes, porque não tenho o privilégio de morar junto à praia. Firme, isso sim, no propósito de por a nossa escrita em dia. Mal sabia eu que, quando voltasse a sentar-me para retomar a correspondência, desta vez para te deixar algumas impressões de um pequeno livro que li, depararia com mais um relato desse teu espírito de repórter nato, que mergulha a fundo na realidade para a compreender e relatar, nem que isso implique andar pela praia às seis da manhã…
Caro amigo
Visto que persistes nesse teu mutismo, a não ligares nenhuma às minhas cartas, calado que nem um rato, venho só dar-te um conselho. Andas cansado? Com muito trabalho? Sem vontade? Desinspirado? (Ando a inventar palavras agora). Aborrecido? Começa a levantar-te às quatro da manhã e vai dar um mergulho à praia. Aqui funciona. Parece.
Caro amigo
Andas tu muito calado por aí. Se fosses uma criança diria que, com tanto silêncio “ou já a fizeste ou estás para a fazer”. Asneira, claro está. E por falar em asneira… sabes que ontem foi mais um barquito ao fundo, aqui no arquipélago? Dramático! Afundam mais rápido do que num jogo da batalha naval!
Caro amigo
Não sei bem o que te posso dizer hoje, tanto mais em que à hora que te escrevo não tenho Internet outra vez, coisa banal por aqui, como sabes. Mas também, a um domingo, terás coisas mais importantes para fazer, agora que o tempo está bom. Por cá, poderei estar na praia, a dormir, numa esplanada ou sei lá eu. Mas na Praia estarei, por certo. Com ou sem comunicações.
Recordado Fernando,
faz amanhã um ano que desapareceu de um apartamento no Algarve Madeleine McCann, uma menina britânica então com quatro anos, que dormia com os dois irmãos gémeos mais pequenos enquanto os pais jantavam com amigos num restaurante a 50 metros. E quase te podia repetir a carta que te escrevi dias depois. E outras que te fiz chegar sobre o caso. É que tudo está na mesma. A Polícia Judiciária não deixou transparecer qualquer evolução nas investigações, os pais voltaram para casa mas continuam a ser arguidos, o que faz sobre eles recair suspeitas, e o tema veio a perder gás, quase só recordado na altura do lançamento de livros sobre o que se terá passado na Praia da Luz. Como alguém já disse, o “caso” tornou-se num grande negócio.
Caro amigo
Poderia fazer-te uma dissertação sobre o trabalho, o tal que dignifica o homem…e a mulher, porque hoje é o dia desses pobres esforçados, mas prefiro falar-te antes de outros pobres esforçados. Mais precisamente 2030. Começaram há umas horas num frenesim de 15 dias, a ver se ganham as 22 câmaras de Cabo Verde. Aqui não há dezenas de manifestações nem protestos contra baixos salários, só campanha eleitoral. E tinha de te falar disto, porque é isto o que está a dar pelas ilhas.
Indignado Fernando,
compreendo perfeitamente a tua revolta e calculo que não seja mesmo nada fácil lidar com essas situações que relatas. Calmo como és, não consigo imaginar como seria eu a lidar com esse modo de estar na vida que perdura aí. Pode não ser admissível, nem sequer compreensível. Só que desaparece quando nos surge um cenário como o que atira para as trevas um dos países que apresenta dos melhores indicadores de nível de vida em todo o Mundo. Já percebeste que venho falar-te da Áustria e do que me perturba saber que um país assim, que funciona, bem organizado, apontado como exemplo dos avanços da civilização, origine monstros como este agora descoberto que manteve a própria filha fechada numa cave 24 anos, a violou e teve dela sete filhos. Se tudo fosse comparável, descer as escadas de vela acesa porque os vizinhos ignoram o que é viver num prédio e se acham espertalhaços em não pagar o condomínio seria uma festa de arromba.
Caro amigo
Hoje vou continuar à volta do mesmo assunto da carta passada. E vem a propósito que está cá, desde ontem, o presidente da ASAE, António Nunes, que vem aqui assinar uns protocolos de cooperação. Chegou ontem, mas se tivesse poderes para isso acho que ainda estaria no aeroporto, para aí no terceiro livro de multas.


